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alinhamentos

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Qui | 24.07.14

Tantos desempregados para tão pouca mão-de-obra

fcrocha

Há umas semanas, fui cortar o cabelo e o barbeiro contou-me que andava aflito à procura de um funcionário para a barbearia. A páginas tantas, pediu-me para colocar um anúncio no jornal, um que fosse bem visível, pois estava com muito trabalho e precisava urgentemente de um colaborador. Na semana seguinte à publicação do anúncio, o dono da barbearia pediu nova publicação do anúncio, já que ninguém tinha respondido ao primeiro.

 

Quase todas as semanas publicamos uma lista de ofertas de emprego disponibilizadas pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) de Penafiel e de Valongo. No total, são mais de meia centena. Há uns dias, a designer do VERDADEIRO OLHAR chamou-me a atenção para o facto de a maioria das ofertas ser repetida da semana anterior. Pensei que era um lapso e entrei em contacto com o responsável de comunicação do IEFP para dar conta do erro e fiquei a saber que não era um erro: ninguém respondia às ofertas de emprego que, para além de publicadas no nosso jornal, estavam também anunciadas em dezenas de sítios da Internet que divulgam ofertas de emprego.

 

Esta semana, encontrei um casal amigo que já não via há uns cinco anos. Fiquei a saber que têm uma fábrica de confecções. Quando perguntei se o negócio corria bem, queixaram-se de que não encontram pessoas suficientes para operar as máquinas de costura. Pediram ajuda ao centro de emprego de Penafiel, que lhes enviou os contactos de 23 candidatas inscritas. Dessas, 19 não se deram ao trabalho de aparecer, uma outra não podia porque ia de férias agora, outra não disse que não sabia trabalhar naquelas máquinas, outra disse que estava doente. Concluindo, das 23 candidatas, ficaram duas a trabalhar.

 

Podia continuar a preencher o espaço deste editorial com mais histórias destas. Há muitas, imensas! A história de que a nossa população activa está, em geral, mais qualificada, que se habituou a um padrão de vida mais elevado e que, por isso, oferece resistência à aceitação de trabalhos menos qualificados e menos remunerados não será uma visão simplificadora e deturpada da realidade? Será suficiente para explicar que entre mais de meio milhão de desempregados não exista um barbeiro ou 10 costureiras?

 

Alguma coisa está errada nisto tudo. É difícil de compreender como é que, ao mesmo tempo, há tantos desempregados e tanta falta de mão-de-obra. Da mesma forma que é difícil de compreender que desempregados inscritos nos centros de emprego faltem à entrevista de emprego sem qualquer justificação e continuem a receber o subsídio de desemprego.