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Sex | 26.03.10

Violência doméstica é notícia?

fcrocha

No passado sábado, o Jornal VERDADEIRO OLHAR noticiou um alegado caso de violência doméstica. A ex-mulher do ciclista Cândido Barbosa acusa o também vereador da Câmara Municipal de Paredes de a ter agredido na frente dos filhos. No domingo, três jornais nacionais deram destaque a este assunto.

 

A publicação da notícia tem gerado algumas reacções, umas menos bem-intencionadas que outras. Portanto, interessa perceber se um caso de violência doméstica é ou não notícia.

 

Antes de mais, convém esclarecer que a violência doméstica passou a ser crime público em 2000. Ou seja, deixou de ser um assunto apenas do foro íntimo do casal.

 

Hoje mesmo, o Jornal de Notícias noticia que “todos os dias, 84 mulheres são vítimas de violência doméstica”. Convém relembrar que no ano passado, no nosso país, 40 mulheres perderam a vida vítimas de violência doméstica.  Mas estes números são apenas um bocadinho do que se conhece, pois muitos casos continuam a não ser conhecidos, já que as vítimas, por variadíssimas razões, optam pelo silêncio sem dele dar conhecimento às autoridades. Mesmo assim, no ano passado, a GNR e a PSP registaram mais de 20 mil ocorrências. O número não nos choca, o que nos choca é o reduzido número de condenações.

 

Estes, são apenas alguns dos números negros da violência doméstica em Portugal, mas quem trabalha na Comunicação Social não pode ficar apenas pela análise destes números. Tem que os denunciar. Embora a violência doméstica, como já disse, seja crime público, entre a lei que parece perfeita e a vida vai uma grande distância.

 

A Comunicação Social pode e deve fazer a diferença, dando espaço noticioso a este tema, dando voz a quem, por vezes não tem voz.

 

Voltando à questão inicial: o VERDADEIRO OLHAR, o Jornal de Notícias, Diário de Notícias e Correio da Manhã estiveram mal ao denunciar este caso? Vejamos o que dizem as Nações Unidas.

 

A Assembleia Geral das Nações Unidas, através de uma resolução aprovada por unanimidade, recomenda uma actuação dos Media no sentido de “desafiar as atitudes do público face à violência doméstica”. Para conseguir tal objectivo, propõem que os Media denunciem os casos de violência doméstica. Inclusive, recomenda que o assunto não seja tratado nas secções “crime”, mas sim nas secções “sociedade”. A mesma resolução aconselha a que sejam omissas referências à vida social ou amorosa dos intervenientes, mas o comportamento dos agressores deve ser claramente exposto, assim como a sua identificação pessoal. Deve ficar claro quem é o agressor e quem é a vítima.

 

Antes de analisar este caso em concreto, é importante que se diga que pode tomar forma de violência doméstica, a violência psicológica e mental, que inclui agressões verbais, perseguição, privação de recursos físicos e financeiros. Em muitos casos chega-se à agressão física, que pode ir das violações, empurrões, beliscões, pontapés, espancamentos até à morte.

 

A notícia do VERDADEIRO OLHAR é notícia?

 

Para a elaboração da notícia, o jornalista recolheu e analisou todos os dados de forma a dar uma informação correcta. O jornalista ouviu a vítima que lhe relatou os factos, confirmou junto do hospital a ida desta ao serviço de urgência e junto da GNR confirmou que havia sido apresentada queixa contra Cândido Barbosa por violência doméstica. Cândido Barbosa, ouvido pelo jornalista, não quis comentar. Não restam dúvidas que a notícia é verdadeira.

 

A isto tudo temos que acrescentar o facto de Cândido Barbosa ser uma figura pública. Para os mais distraídos, convém relembrar que o ciclista foi o mandatário para a juventude na campanha eleitoral de Cavaco Silva e é vereador do pelouro do desporto na Câmara Municipal de Paredes.

 

Eu percebo que a alguns dê jeito pôr em prática aquele velho ditado português que diz “entre marido e mulher ninguém meta a colher”. Mas os casos de violência doméstica dizem respeito a todos. Deixaram de ser assunto privado, passaram a ser considerados crime público, um atentado aos direitos humanos.

 

O caso que o Jornal VERDADEIRO OLHAR relatou não é um caso de uma determinada família, de uma certa localidade ou de apenas de um sector da sociedade. A violência doméstica é uma chaga social generalizada que urge pôr em relevo.

 

Dizer que a violência doméstica é um assunto que apenas diz respeito à vítima e ao agressor é o mesmo que dizer que o trabalho infantil apenas diz respeito a quem tem filhos, ou que a escravatura é apenas um assunto que diz respeito ao comprador e vendedor de escravos.

 

Para finalizar, há a dizer que, hoje mesmo, a Amnistia Internacional avançou com uma campanha que visa sensibilizar a população a dar voz às mulheres para acabar com os segredos em torno da violência doméstica.