Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010

Manifesto

Publico aqui um excerto do texto doutrinário mais conhecido de Almada Negreiros. Foi escrito em 1912, mas impresso sobre papel de embrulho em Abril de 1913.

 

"O Manifesto" é um texto que maldiz uma das figuras da literatura portuguesa que, durante algumas décadas, representou a cultura académica e conformista, influenciando todo um conjunto de escritores, jornalistas, políticos e actores. Trata-se de Júlio Dantas, cuja peça de teatro "Mariana Alcoforado" foi satirizada em jeito de caricatura social, por Almada.

 


Com este texto, Almada abriu caminho ao Futurismo e a si próprio. Se o Almada Negreiros fosse vivo, substituiria o Dantas por Artur Penedos.

 

Manifesto Anti-Dantas

 


Basta pum basta!!!

 

Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!

 

Abaixo a geração!

 

Morra o Dantas, morra! Pim!

 

Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!

 

Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em seco!

 

O Dantas é um cigano!

 

O Dantas é meio cigano!

 

O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!

O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!

 

O Dantas é um habilidoso!

 

O Dantas veste-se mal!

 

O Dantas usa ceroulas de malha!

 

O Dantas especula e inocula os concubinos!

 

O Dantas é Dantas!

 

O Dantas é Júlio!

 

Morra o Dantas, morra! Pim!

 

O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d'Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz!

 

E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu!

 

O Dantas é um ciganão!

 

Não é preciso ir pró Rossio pra se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!

 

Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas!

 

Basta ser Dantas!

 

Morra o Dantas, morra! Pim!

 

O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever!

 

O Dantas é um autómato que deita pra fora o que a gente já sabe o que vai sair... Mas é preciso deitar dinheiro!

 

O Dantas é um soneto dele-próprio!

 

O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum.

 

O Dantas nu é horroroso!

 

O Dantas cheira mal da boca!

 

Morra o Dantas, morra! Pim!

 

O Dantas é o escárnio da consciência!

 

Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!

 

O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa!

 

O Dantas é a meta da decadência mental!

 

E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!

 

E ainda há quem lhe estenda a mão!

 

E quem lhe lave a roupa!

 

E quem tenha dó do Dantas!

 

E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero!

alinhado por fcrocha às 21:37

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