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Ter | 08.06.10

Não se acelera nem se atrasa a morte

fcrocha

 

Hoje, decidi publicar uma entrevista ao Prof. Daniel Serrão. O tema é os cuidados paliativos. O Prof. Daniel Serrão é uma das pessoas com mais autoridade nesta matéria e que luta há mais de 20 anos por uma maior dignidade da pessoa, ainda que doente, vulnerável e limitada.

 

Quando terminar de ler a entrevista ao Prof. Daniel Serrão, vai perceber que os cuidados paliativos não são cuidados menores do sistema de saúde, não se resumem a uma intervenção caritativa bem-intencionada, nem se destinam a um grupo reduzido de situações. Os cuidados paliativos constituem hoje uma resposta indispensável aos problemas do final da vida.

 

Em nome da ética, da dignidade e do bem-estar de cada Homem é preciso torná-los cada vez mais uma realidade.

 

A entrevista foi feita pela nossa jornalista Fernanda Pinto.

 

 

Daniel Serrão, professor no Instituto de Bioética da Universidade Católica

 

“Não se acelera nem se atrasa a morte”

 

Estivemos à conversa com o professor Daniel Serrão que nos abriu as portas da sua casa e da sua vida/”morte”, partilhando connosco algumas das suas convicções e experiências de vida.

 

Este professor, formado em anatomia patológica, que se dedica à luta pelos cuidados paliativos há já 20 anos, “quando ainda ninguém falava de cuidados paliativos em Portugal”, adiantou que este interesse surgiu por causa da questão da eutanásia. “Nenhum de nós tem ‘moral’ para dizer que não admite a eutanásia quando não é capaz de dar às pessoas o cuidado que faz com que a eutanásia se torne absurda e que não seja solução para ninguém”, afirmou Daniel Serrão, insistindo na importância de uma boa rede de cuidados paliativos.

 

O objectivo principal destes cuidados é promover o conforto do doente até à hora da morte e, nesse sentido, este professor, que é também membro da Academia Pontifícia para a Vida, garante que a família tem um papel fundamental, mas que também é importante que haja um bom acompanhamento por parte de médicos e enfermeiros.

 

Na semana em que se fala dos cuidados paliativos, o que se tem feito em Portugal nesta área é suficiente?

 

Não, é absolutamente insuficiente. O cuidado paliativo é uma nova forma de assistência aos doentes, é uma especialidade médica que ainda não foi desenvolvida em Portugal na mesma medida que foi noutros países. A verdade é que foi criada uma estrutura chamada de cuidados continuados em que os doentes em recuperação saem do hospital e vão para uma instituição que é ‘meio hospital’, ficando ali a continuar os cuidados até terem condições para ir trabalhar. O cuidado paliativo é completamente diferente, é a assistência, o apoio, a medicina feita para pessoas que vão morrer. E que vão morrer num prazo de tempo relativamente curto, já que o conceito de doença terminal vai até aos seis meses, mas a maior parte das vezes falamos de semanas. São doentes em que todas as intervenções com finalidade curativa para curar a doença principal estão excluídas. O objectivo é promover o conforto da pessoa até ao momento da morte.

 

O que é que pode ser então feito para diminuir o sofrimento desses doentes e dos seus familiares?

 

O cuidado paliativo tipicamente orienta-se para o doente e para a sua família. Pode ser inclusivamente feito no domicílio. Eu reconheço que actualmente há muitas casas que não têm condições para poder ter os doente até ao momento da morte, até porque infelizmente, e isto é uma coisa desagradável de dizer, há habitações em Portugal em que o caixão não cabe no elevador nem cabe nas escadas estreitas. Portanto, em muitas situações os doentes precisarão de morrer ou no hospital, numa área que não seja de cuidados curativos, ou morrer em instituições destinadas a cuidados paliativos.

 

Os cuidados paliativos devem estar presentes em todos os hospitais e ter condições específicas?

 

As unidades de cuidados paliativos específicas que existem são no Instituto de Oncologia do Porto, no Instituto de Oncologia de Coimbra e na Misericórdia da Amadora em Lisboa. Mas os cuidados paliativos podem ser feitos como acontece em França, dentro dos grandes hospitais, havendo uma área destinada ao atendimento dos doentes em fase terminal. Estas áreas habitualmente têm uma ligação directa com o exterior para que as visitas possam entrar e sair com a maior facilidade, e sem estarem sujeitos à regulação hospitalar das visitas. No cuidado paliativo, a situação é diferente. A família é chamada a participar e a pessoa que está a morrer, tendo os familiares próximos, sente-se muito melhor. O cuidado paliativo exige critérios que não sejam burocrático-administrativos, não é matéria para burocratas. E tem que ser tecnicamente impecável. Médicos, enfermeiras, psicólogos, assistentes sociais, todas essas pessoas têm que ser muitíssimo competentes, e ter um sentido de abertura e de humanização, de modo a que os doentes possam revelar as suas necessidades mais profundas, que vão além do tratamento da dor.

 

Há quem defina cuidados paliativos como uma intervenção de carácter caritativo, bem-intencionada. O cuidado paliativo é só isto ou esta é uma visão muito redutora?

 

Não, com certeza que não. O cuidado paliativo é, segundo a Organização Mundial de Saúde, um cuidado multidisciplinar, orientado para o bem-estar do doente, físico, psíquico, social e espiritual. É tudo o que possa ajudar essa pessoa a viver bem até ao momento da morte. Não se acelera nem se atrasa a morte, mas a dor tem que ser rigorosamente tratada, até porque hoje não há justificação para que haja dor, não há dores que não sejam tratáveis. O sofrimento deve ser também tratado por especialistas, uma unidade de cuidados paliativos tem que ter psicólogos capazes de acolher a dor. E o que é isto. É eu colocar-me na posição da pessoa, imaginar que estou a viver como ela e ser capaz de comunicar com ela nesse momento. De certa maneira, transferir o sofrimento dessa pessoa para mim.

 

Estes cuidados paliativos não se restringem então só a “moribundos”?

 

Na unidade de cuidados paliativos do IPO tem uma secção de pintura, de modelagem de barro, muitas actividades que podem fazer durante o tempo que estão a aguardar o momento da morte. Dependo da doença, há pessoas que ainda têm capacidade para sair e devem até quanto possível manter uma relação com a sociedade e que de preferência sejam visitados pela família, pelos colegas de emprego, enfim, mantê-los ligados ao mundo. É essa a diferença, enquanto o hospital extrai a pessoa do mundo, no cuidado paliativo, até onde for possível, permite-se essa ligação. Há algumas unidades paliativas com extensão domiciliária em que o doente passa muito tempo na sua própria casa e em que a família é ensinada para perceber o que deve fazer perante certas situações.

 

Os cuidados paliativos são considerados muitas vezes pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS) como sendo cuidados muito dispendiosos. Concorda com esta afirmação?

 

Em termos económicos, e admitindo que o SNS tem vergonha de mandar para casa pessoas que sabem que vão morrer e que vão ficar abandonadas, já que muitas das casas e das famílias em Portugal não têm condições. Admitindo que não têm coragem de fazer isso, essas pessoas vão ocupar uma cama com finalidades curativas. Uma cama de hospital de cuidados curativos por dia custa quatro ou cinco vezes mais que uma cama de cuidados paliativos. Porque na cama de cuidados paliativos a despesa global com aquela unidade e com aquele doente é mínima. É muito importante a relação humana e tudo o que se faz por aquela pessoa, mas o consumo de medicamentos é muito inferior ao dos cuidados curativos, onde o doente continua a ser tratado e a fazer exames à espera que aconteça sei lá o quê. Se o doente for transferido dos cuidados curativos para os paliativos vai poupar dinheiro ao SNS.

 

Em termos de formação para esta área, Portugal está a seguir o caminho correcto?

 

A dificuldade dos cuidados paliativos é o pessoal técnico que não existe e precisa de ser preparado. As três grandes unidades que há em Portugal podem preparar médicos, enfermeiros e assistentes sociais para cuidados paliativos. Senão passamos a ser amadores que não sabem fazer nada. Já está a fazer-se alguma coisa mas é preciso fazer-se mais. É necessário que se calcule quantos profissionais especializados são necessários, especialmente na área de enfermagem, que é a mais importante. Também convém lembrar que nenhuma enfermeira nem nenhum médico suportam viver sempre em cuidados paliativos, porque todos os seus doentes morrem, e eles investem muito nos seus doentes. Aquilo que é aconselhado é haver rotação, em que ao fim de dois anos os profissionais voltam aos cuidados curativos, para verem os pacientes recuperar. Isso é que dá alegria.

 

É preciso ter vocação para lidar com estes doentes?

 

É preciso uma vocação própria. Há enfermeiras para as quais isso seria perfeitamente impossível. Depois há outra questão de que ainda não falei que é o cuidado paliativo de crianças. Acompanhar um idoso que vai morrer é uma regra, é uma coisa natural, agora uma criança é muito duro. É difícil para o jovem e para quem o acompanha, porque pensamos que “Deus não devia permitir tal coisa”. Mas as crianças aceitam a morte com muito maior resiliência do que as pessoas com 50 ou 60 anos.

 

Os cuidados paliativos devem ser olhados sobretudo como uma forma de manter a dignidade de pessoa humana até à hora da morte?

 

Com certeza. Eu costumo dizer que a dignidade humana não está nos esfíncteres, não é por um indivíduo perder a urina ou as fezes que perde a dignidade. A dignidade humana está no respeito que os outros têm pela condição em que eu me encontro. O que me dá dignidade é que quando o outro olha para mim não me despreze, mas que me respeite na minha condição de moribundo, de pessoa que vai morrer. Isso é o que o cuidado paliativo procura dar. A minha dignidade humana é vista no olhar que o outro apresenta. É quando ele olha para mim que eu me sinto digno ou não.

 

Numa altura em que se discute esta ideia do que será uma morte digna, surgem duas correntes, uma que defende que passa pela eutanásia, a outra que é fazer com que a pessoa viva intensamente os últimos momentos. O que é para si uma morte digna?

 

Eu tenho dito muitas vezes esta frase e vou repeti-la agora: a morte mais indigna é eu morrer às mãos de outra pessoa. O facto de eu pedir ao outro que me mate não retira a indignidade do acto. Portanto não se pode nunca falar nem de dignidade nem de autonomia quando se fala de eutanásia. Porque se um tem autonomia para pedir o outro tem autonomia para recusar. E entre estas duas autonomias qual é a mais digna? É aquela que recusa matar o outro. A solução não é a eutanásia é tratar os motivos pelos quais a pessoa pede a eutanásia.

 

Uma aposta nos cuidados paliativos poderia evitar que se considere a hipótese de eutanásia?

 

Nenhum de nós tem “moral” para dizer que não admite a eutanásia quando não é capaz de dar às pessoas o cuidado que faz com que a eutanásia se torne absurda e que não seja solução para ninguém. Enquanto eu não tiver um rede de cuidados paliativos a funcionar bem em Portugal, eu recusando a eutanásia aos doentes, que estão maltratados, abandonados, que têm dores que ninguém trata, estou a ser hipócrita. Só tenho razão ao dizer que a eutanásia não é solução porque tenho uma solução melhor, se não a tiver então o melhor é matar as pessoas. O cuidado paliativo vale por si próprio, não é por causa da eutanásia. Só o bom cuidado paliativo torna legítima e moralmente aceitável a recusa da eutanásia. E isto é a forma mais dura de explicar às pessoas que em vez de lutarem pela eutanásia devem lutar pelos cuidados paliativos.

 

Segundo a presidente do Movimento de Cidadãos Pró-Cuidados Paliativos, apenas cinco em cada 100 portugueses tem qualidade ao morrer. Concorda com esta ideia?

 

Acho que actualmente se morre muito mal em Portugal. Bastava uma pequena alteração, acrescentar uma palavrinha na Constituição da República para os cuidados paliativos passarem a ser uma obrigação constitucional. Isso bastava para que houvesse mais respeito por esses doentes. Posso-lhe dizer que nos cuidados paliativos o clima é de alegria, não é um clima fúnebre, nem se trata de nenhuma antecâmara da morte. As pessoas vivem com alegria o tempo que têm para morrer.

 

O que é que alguém pode fazer se achar que tem essa vocação para se ligar aos cuidados paliativos?

 

O voluntariado é importante. As pessoas nesta fase terminal querem contar a sua vida a alguém, têm essa necessidade de falar. O voluntário faz de elo de ligação entre o mundo social que o doente deixou e entre a pessoa e a família. Até para lhes explicar que a pessoa sabe que vai morrer e que não é necessário continuar a fingir.

 

Em Portugal já há muitas pessoas com este espírito de voluntariado?

 

Felizmente já há. Mas o voluntariado não é só para reformados. Eu dirigi durante algum tempo o voluntariado do Hospital de S. João e tínhamos lá estudantes, gente nova. Mas também temos que seleccionar as pessoas e têm de ser preparadas, têm que fazer uma formação especial para saberem o que devem e o que não devem fazer. Os voluntários dos cuidados paliativos também têm que ser pessoas muito equilibradas para não descarregarem sobre o doente as suas frustrações e ansiedades. Por isso, toda a gente que trabalha em cuidados paliativos tem que aceitar a sua própria morte como uma coisa normal.

 

É difícil para os doentes aceitarem a ideia de que vão morrer?

 

Felizmente Deus deu-nos esta facilidade de aceitação da morte quando estamos doentes. Quando a pessoa aceita que vai morrer entra na via da morte com paz, segurança e tranquilidade. Eu tenho acompanhado muitas pessoas em fase terminal e nunca vi ninguém que se tenha desesperado. Eu espero também aceitar a minha quando chegar a minha vez.

 

Há alguma história que recorde de alguém que tenha acompanhado e que o marcou mais até agora?

 

Foi a de um jovem, de 12 ou 14 anos, que tinha uma doença para a qual na altura ainda não havia tratamento e que chegou a um ponto em que já não se podia fazer mais nada. Eu estava formado à apenas um ou dois anos e saí da enfermaria do Hospital de Santo António pelas quatro horas da tarde, chegando a casa com a convicção de que ele ia morrer naquela noite. Quando cheguei no dia seguinte às oito horas e entrei na enfermaria nem coragem tive para olhar para o lado esquerdo, já que a cama dele era a primeira desse lado. Tinha a certeza que ao olhar para lá a cama estaria vazia. Mas entretanto olhei e ele estava lá e fez-me sinal. Quando cheguei ao pé dele vi que ele estava muito mal e abaixei-me, ele passou-me os braços pelo pescoço, num abraço, e morreu. E a minha convicção, nesse momento como hoje, é que ele esperou por mim para morrer, porque eu era muito amigo dele, já que ele não tinha família que o visitasse. Ele não quis ir embora sem me dizer adeus. Fiquei muito impressionado nessa altura.

 

 

Histórias de vida

“Num hospital em França, numa dessas unidades de cuidados paliativos, estava lá internada a mulher de um emigrante português que trabalhava na construção civil e estava também a mulher de um almirante. Na França, um almirante é uma pessoa importantíssima, pertence à alta sociedade. Mas o português e o almirante falavam normalmente, porque ali não estava nem o almirante nem o trabalhador da construção civil. Eram dois seres humanos que tinham as esposas a morrer. Conversavam muita coisa. E o português um dia referiu em conversa que só tinha o desgosto de não poder levar o corpo da mulher para Portugal, mas que não podia porque era caro. E isto passou-se, não voltaram a falar nisso.

 

Entretanto, a mulher do almirante morreu e ele foi-se embora e nunca mais lá voltou. Passado um mês morre a mulher do português e ele foi à secretaria tratar do funeral para um cemitério de Paris. Lá disseram-lhe que a mulher iria para Portugal e ele disse que gostaria mas que não tinha dinheiro, ao que lhe responderam que não se preocupasse porque o senhor almirante antes de se ir embora tinha deixado tudo pago. Na unidade de cuidados paliativos criam-se relações humanas que estão acima do fingimento social. Em face da morte somos todos iguais, morremos todos da mesma maneira, o rico e o pobre, o bandido e o santo.

 

Podia contar muitos outros exemplos que tenho da minha vivência pessoal relativamente ao acompanhamento destes doentes. Os doentes em fase terminal sabem todos que vão morrer. Como me disse uma vez uma doente ‘mas isto agora é de morte’, quando ela já sabia que era, e eu respondi ‘pois é, pois é’ e mudamos de assunto, porque não era preciso dizer mais nada, estava tudo dito”.

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