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Sex | 12.07.13

A rendição do Comandante Supremo das Forças Armadas

fcrocha

Tenho um amigo com quem troco umas ideias sobre a vida política. Hoje, estivemos a conversar sobre a comunicação ao país de Cavaco Silva e chegamos a uma conclusão diferente da maioria das opiniões dos comentadores políticos. É essa opinião que quero partilhar convosco.

 

Na comunicação que fez ao país, o senhor Presidente da Republica cometeu, no meu entender, duas falhas graves. Comecemos pelo menos grave.

 

Perante a proposta do Primeiro-ministro, Cavaco Silva não apresenta uma única justificação para não a aceitar. Na verdade, ele nem diz se aceita ou não aceita. Ele simplesmente apresenta outra solução: quer o consenso entre o PSD, PS e CDS-PP, justificado com o cumprimento dos objectivos do memorando com a Troika.

 

Ora, mas esse já não havia sido assinado pelos três partidos? O que é aconteceu de novo que indicie a necessidade de uma maioria alargada? O Presidente da Republica acha que é necessário alterar a Constituição? Não me parece que isso esteja para acontecer neste momento. Há alguma reforma que não tenha avançado por causa do Partido Socialista e que seja necessária neste momento? Não. Há conflitualidade social exagerada acicatada pelos socialistas? Não, o PS até se tem portado bem nessa matéria. Afinal, para que quer um consenso a três? Fiquei sem entender.

 

Agora, aquela que para mim é a parte mais grave do discurso do Presidente da Republica.

 

Cavaco Silva deveria ter começado por equacionar se justificava-se ou não a realização de eleições. Acredito que não devia haver eleições, mas não é pelos motivos apresentados pelo Presidente da Republica.

 

Para fugir a essa discussão, para não entrar no detalhe se havia ou não a necessidade de realização de eleições legislativas antecipadas, Cavaco Silva vem simplesmente dizer que não se pode. Não se pode porquê? A resposta do Presidente da Republica é que é gravíssima!

 

Ele diz que há quem defenda a necessidade da realização de eleições antecipadas, mas ele próprio não se compromete a dizer se acha que devia haver eleições. Ele simplesmente diz que não pode haver eleições porque os senhores que nos emprestam dinheiro vão ficar chateados. Ou seja, Portugal, um país independente, está submetido a uma potência estrangeira de tal forma que condiciona o exercício da nossa soberania naquilo é há de mais sagrado em democracia: o povo pronunciar-se em eleições. Isto é a rendição do Presidente da Republica.

 

O Presidente da Republica, sem discutir se é necessário ou não a realização de eleições, diz logo que não pode haver porque os senhores da Troika zangam-se e deixam de nos emprestar dinheiro. O que significa que, naquilo que há de mais sagrado em democracia, que é a possibilidade do povo livremente se expressar quanto ao destino do país, Portugal está impedido de o fazer. Isto é a rendição do Comandante Supremo das Forças Armadas do meu país. Não se pode dizer que desertou, porque ele ainda lá está em Belém, mas rendeu-se.

 

Isto é a prova que quando as coisas estão mal, pode sempre acontecer algo bem pior.

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