Quinta-feira, 02 de Julho de 2015

A Grécia e nós

No dia em que escrevo este texto, a Grécia conseguiu mais um feito histórico: é a primeira vez em 71 anos do Fundo Monetário Internacional (FMI) que uma economia desenvolvida falha um pagamento. O Governo de Atenas, ao não ter reembolsado os 1,6 mil milhões de euros que deve ao FMI, faz com que, a partir de hoje, o país fique impedido de recorrer àquela organização até pagar a prestação em atraso e, talvez daqui a poucos dias, os bancos gregos ficarão insolventes.

 

Para além disso, neste mesmo dia termina o programa de assistência financeira ao país. Ou seja, os gregos estão por sua conta e risco para encontrar recursos financeiros para fazer face às suas necessidades.

 

Hoje, o director de um dos mais importantes jornais gregos, o “To Vima”, escreve um editorial muito crítico à actuação do Governo grego: “ O sr. Tsipras não pode brincar com o futuro do país e assistir, impávido, à deterioração da situação a cada dia, falando apenas com quem concorda com ele. O país está à beira da catástrofe, o primeiro-ministro tem que decidir exactamente o que quer e o que quer pedir aos gregos e à Europa”.

 

No fundo, o director do “To Vima” está a pedir a Alexis Tsipras o mesmo que o FMI e a Europa pedem desde Janeiro: que governe o país. O Syriza ganhou as eleições prometendo tudo a todos, iludindo os gregos com um futuro melhor que dependia do dinheiro dos outros.

 

Por cá, a reacção do Partido Socialista à situação grega mudou drasticamente. Certamente que todos se recordarão de que, em Janeiro, perante a vitória do Syriza, António Costa afirmava, em tom eufórico, que “a vitória do Syriza é um sinal de mudança”, esquecendo que o PASOK, o partido socialista grego, tinha conseguido apenas 4,6 por cento dos votos. O mesmo António Costa, agora, não diz uma palavra sobre o assunto, mas continua a distribuir promessas eleitorais que, tal como na Grécia, dependem do dinheiro dos outros.

 

O que aconteceu à Grécia é o que acontece às famílias e às empresas. Só somos independentes dos outros quando não dependemos dos outros para nos financiarmos.

 

Agora que se aproximam as eleições legislativas, é mais do nunca importante manter a memória fresca. O ano de 2011 não foi assim há tanto tempo.

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