Quinta-feira, 12 de Março de 2015

Sem políticos não há democracia

 

Parece-me politicamente grave que o Primeiro-Ministro tenha chegado ao poder com dívidas à Segurança Social. Parece-me politicamente mais grave a trapalhada em que se meteu: num primeiro momento, Pedro Passos Coelho não sabia que tinha que pagar à Segurança Social; depois, sabia que tinha que pagar, mas tinha-se esquecido; quando se lembrou, não tinha dinheiro para pagar. Esta argumentação pode até ser verdadeira, mas não deixa de ser grave politicamente.

 

É claro que Pedro Passos Coelho conhecia a obrigação de pagar à Segurança Social e que, ao fugir ao seu cumprimento, cometeu uma falha grave. Por outro lado, as explicações que vai dando para tudo isto são patéticas e vão tornando tudo ainda mais grave, politicamente falando. No entanto, confundir a gravidade política do atraso de um pagamento à Segurança Social com a gravidade da gestão danosa e muitas vezes criminosa imputada a outros políticos é misturar alhos com bugalhos.

 

Como este episódio da dívida de Passos Coelho à Segurança Social fez desencadear entre alguns fazedores de opinião o discurso alarmista de que os políticos são todos uns malfeitores, é preciso que não se confunda a gravidade de um incumprimento no pagamento de um imposto ou de uma contribuição com situações bem diferentes de condenação ou indiciação pela prática de crimes de corrupção ou de branqueamento de capitais, de gravidade muitíssimo superior.

 

Se é verdade que temos tendência para desculpar as nossas próprias faltas – quem, tal como eu, já teve alguma actividade de prestação de serviços e pode dizer que não ficou a dever, uma vez que fosse, à Segurança Social?... – mas não as dos políticos, por acharmos que eles têm o dever de dar o exemplo, é preciso estar com atenção para o perigo de se continuar com este discurso antipolíticos, metendo todos no mesmo saco, pois pode conduzir-nos a uma anarquia.

 

Isso mesmo já percebeu o líder do Partido Socialista. Ao afirmar que este é um assunto que tem que ser julgado pelos eleitores nas próximas eleições, António Costa está a fazer com que este assunto seja conduzido para o lugar certo: o espaço político. É certo que muitos dirão que António Costa faz isto porque também tem ou teve situações fiscais por regularizar, mas a verdade é que o líder do PS elevou o discurso político.

 

Querer passar para a opinião pública a ideia de que os políticos são todos uns bandidos é criar condições para a multiplicação dos demagogos e a sua elevação em direcção ao poder, o que só pode conduzir o país ao caminho da anarquia. Para haver democracia, tem que haver políticos. E tem que haver também um povo que assuma a responsabilidade de os escolher bem.    

 

alinhado por fcrocha às 11:47

4 comentários:

Ou será que tb o Costa está na bolsa VIP das finanças?
cidadão a 12 de Março de 2015 às 19:38
Vou com toda a certeza tomar por conta que este artigo tenta ser isento dai dar a minha opiniao , em 2008 quando na minha empresa senti dificuldades para pagar o IVA e a Seguranca Social , entendi que pagaria primeiro aos 60 colaboradores que na altura estavam na empresa, assim fiz e mesmo antes de findar o mes a conta da empresa foi congelada por ordem das financas e para piorar alertaram os meus clientes que se tinham creditos a nosso favor que esses creditos passariam a ser pertenca das financas por falta de pagamento dos nossos impostos,ou seja destruiram a nossa credibilidade junto de quem nos pagava, quando comecei a empresa em 2003 com 100 euros no bolso e sem credito ou apoios do estado , ninguem nos fiava ou criava condicoes para crescermos,em 2005 atingimos 500000 de vendas , sem apoios mas com muita vontade e empreendorismo , 2007 , 600000, quisemos crescer e abrimos escritorios a nivel nacional. 2008 desistimos quando estavamos em expansao,60 pessoas , 60 familias, desemprego , emigrei e foi sem duvida o melhor que fiz ,pois a democracia deixou de o ser, passou a um conjunto de pessoas e bancos com designatarios previamente escolhidos atraves de um estudo calculado de riscos, Pedro, Jose, seja la quem ele for jamais conseguiremos ter um representante que seja isento porque o que esta mal e o processo de escolha! Nao existe democracia no verdadeiro sentido dela. Nao acredito que o povo seja tao ignorante que va continuar a aturar isto muito mais tempo,existem sempre outras escolhas e ai passa por quem tiver a coragem para dizer basta,nao seria necessaria coragem se isto fosse realmente uma democracia.
consideracoesminhas a 12 de Março de 2015 às 22:18
Muito bem! e claro que é grave, mais grave ainda é não haver uma restia de vergonha e respeito pelos eleitores desse senhor Passos e da outra coisa Cavaco, em que nem um se demite nem o outro o demite, é o completo desperzo pelos cidadãos.
Teodoro a 13 de Março de 2015 às 10:18
Prezado Francisco,
eu concordo quase inteiramente com tudo o que escreveu, mas, se me permite, eu gostaria de chamar a atenção para alguns aspectos que nunca são falados e reforçar outros já abordados em relação a este assunto.
Um esquecimento qualquer um tem, até eu que já paguei algumas multas por não pagar atempadamente os meus compromissos. Portanto não podemos ir por aí. Agora ter um "esquecimento" durante DOZE (12) anos (desde o primeiro ano em que ele não pagou: 1999), isso já não é normal. Mas mesmo dando todos os benefícios da dúvida, eu não quero que quem tenha tamanhos lapsos de memória me governe, pois não tem noção do que anda a fazer. Mas ainda sendo benevolente, eu tenho amigos, conhecidos e, por fim, as entidades que me relembram que tenho compromissos assumidos e que tenho que os cumprir. Será que ele não tinha absolutamente ninguém (um amigo, um conhecido) que o relembrasse??? Convém frisar que eu sou um Zé Ninguém que não tenho a quem pagar nem amigos grandemente conhecedores da legislação para tratar dos meus compromissos, algo que ele sempre teve desde que entrou para a vida política. Daqui se conclui que ele não pagou porque não quis e queria ver se passava para ter mas abastança na sua vida privada, algo a que qualquer comum concidadão não tem acesso... o curioso é que não se esqueceu de pedir o subsídio de reintegração quando saiu da Assembleia da República... porque seria???
Mas este é apenas mais um (dos muitíssimos) casos a que ele e a generalidade dos nossos políticos nos têm habituado desde que o Mário Soares institucionalizou o compadrio e a corrupção nas altas esferas em Portugal.
Continuando a falar do actual primeiro-ministro, o que me vai levar à questão mais lata de que o sr . Francisco trata sobre a generalidade dos políticos, mesmo que ele tivesse sido um contribuinte exemplar sem qualquer tipo de mancha, eu também não o queria (nem quero) para primeiro-ministro, pois ele em campanha eleitoral fez promessas que eram irrealistas e que, acima de tudo e mais grave ainda, sabia de antemão que não podia nem tencionava cumprir. Mas suponhamos que sim, que tencionava cumprir. Depois de "descobrir" que a realidade não era aquilo que ele estava à espera de encontrar, nem sequer houve da parte dele um pedido de perdão aos Portugueses dizendo que aquilo que encontrou não correspondia àquilo que ele pensava. Pessoas dessas (independentemente de serem ou não político), dispenso. Além do mais, ele seguiu, em democracia, exactamente os mesmos passos que um advogado de triste memória pôs em marcha assim que assumiu o poder: seguiu o caminho mais fácil, aumentando os impostos e empobreceu o país. E o que mais me impressiona é que ambos se orgulham disso...
Mas voltando à classe política na sua generalidade (quantos casos idênticos aos do primeiro-ministro haverá e que só não serão descobertos porque têm funções mais discretas) infelizmente a esmagadora maioria deles (uns mais, outros menos) estão, no mínimo, envolvidos em gestão danosa do erário público, pois se assim não fosse de certeza absoluta que nunca haveriam as dívidas municipais que existem e, a nível Nacional, a existência de TRÊS auxílios financeiros externos em cerca de 41 anos de "democracia"... e só não os houve na última década do milénio passado nem na primeira deste devido aos milhões que entraram no país vindos da então CEE... nunca devido ao facto de todos (uns mais, outros menos) os nossos governantes desde o 25 de Abril de 1974 terem alguma vez gizado um plano de desenvolvimento económico do país para que, além destas situações não existirem, os nossos concidadãos tenham um melhor nível de vida.
Em conclusão, podemos ver através destes factos (e de muitos outros que infelizmente não se sabem) que nunca é demagogia dizer que a esmagadora maioria dos nossos políticos é, no mínimo dos mínimos, aproveitadora das "legalidades" existentes em proveito próprio ("é tudo legal", segundo eles dizem), algo de que nenhum dos nossos concidadãos se pode, nem deve, aproveitar.
Se é um facto que para haver democracia, tem que haver políticos, outra coisa também é certa: políticos destes sem carácter, humildade, justiça e afins e sem amor ao seu país e aos seus concidadãos, DISPENSO... é por isso que eu não voto em nenhum dos partidos da A.R . ...
João Carlos Reis a 13 de Março de 2015 às 12:17

mais sobre mim

Março 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
13
14
15
16
17
18
20
21
22
23
24
25
27
28
29
30
31

pesquisar

 

comentários recentes

  • Concordo plenamente com as criticas aqui apresenta...
  • Já não erraram tudo!
  • Aconselho a leitura deste texto.https://www.facebo...
  • Devo dizer que concordo com o artigo, excepto a qu...
  • Pense apenas em duas coisas: 1ª todos falam da TAP...