Quinta-feira, 10 de Julho de 2014

Os velhos que poderemos ser

Um destes dias, uma amiga minha foi levar a mãe ao hospital e assistiu àquilo que lhe pareceu ser mais um caso de um idoso abandonado pela família no Serviço de Urgência. A propósito disto, lembrei-me de que, mais ao menos por esta altura, os jornais escrevem sempre que há “idosos abandonados nas férias”. Na verdade, como não dá muito resultado meter os mais velhos em malas, sejam de viagem ou do carro, levam-se ao hospital e faz-se de conta que não se deu pela falta deles quando se volta a casa. Depois de terminar o mundial de futebol, e enquanto decorre o aquecimento para a inevitável época de incêndios, os idosos abandonados pela família serão novamente boa notícia para jornais e canais de televisão.

 

Como de costume, vão ouvir uns senhores que sabem muitas coisas e que, na linha de outras declarações, poderão justificar este fenómeno sazonal com a crise económica: “Coitadinhas, as pessoas pobres estão sem capacidade financeira para tratar dos seus idosos”.

 

Só poderá dar uma tal explicação quem nunca foi pobre, nunca conviveu com pessoas pobres, nem faz ideia alguma do que é ser pobre. Associar a pobreza à falta de carácter é tanto uma simplificação excessiva como um desconhecimento geral de como as pessoas funcionam, pelo menos por cá. O pico de abandono de idosos em hospitais dá-se no Verão, quando as famílias vão a banhos para um daqueles locais onde têm que se usar uma pulseira cuja cor dá acesso à ração correspondente ao que pagaram à agência de viagens. Ou seja, os tais pobres que abandonam os idosos são os que têm dinheiro para passar férias fora de casa.

 

Lembro-me de que quando frequentei o antigo ciclo preparatório, o meu professor da disciplina de Religião e Moral, o Padre Franklim, contou-me a seguinte história: um dia, um filho conduziu o seu velho pai até ao cimo de um monte, para que ali esperasse pela morte, que, no seu entender, não tardaria. Deixou-lhe algo para comer e uma manta para se proteger das intempéries. Ao despedir-se, o pai rasgou uma parte da manta e ofereceu-a ao filho, com esta advertência: “Leva-a, porque um dia vais precisar dela, quando o teu filho te trouxer, também, para o cimo do monte”. O professor concluiu a história dizendo que o filho, com aquela lição, tão simples como convincente, pegou no pai e levou-o de volta para o seu lar, onde o tratou com todo o amor.

 

O abandono dos idosos não é um problema económico: é um problema de carácter, de educação, de amor.

alinhado por fcrocha às 14:54
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