Quinta-feira, 02 de Outubro de 2014

O poder é um fim em si mesmo

 

No passado domingo ficámos a saber que o próximo candidato socialista a primeiro-ministro será António Costa. No entanto, ficámos sem saber em quem votaram os simpatizantes e os militantes socialistas, ou seja, se o resultado esmagador obtido por António Costa foi conseguido com o voto maioritário dos simpatizantes ou dos militantes, até porque essa informação permitiria perceber até que ponto o partido estava com o secretário-geral demissionário.

 

António Costa venceu com uma larga maioria após uma campanha de quatro meses durante a qual não disse nada sobre como pensa governar o país caso ganhe as legislativas e, mesmo assim, os militantes e simpatizantes passaram-lhe um cheque em branco que ele preencherá como bem entender.

 

António José Seguro era um outsider, pretendia construir um partido que colidia com os velhos vícios dos velhos barões socialistas, coisa que os próprios não poderiam aceitar. Por isso, a máquina socialista não aceitou renovar-se. As eleições socialistas revelaram que o poder é um fim em si mesmo.

 

O resultado das eleições de domingo deve ter deixado preocupados Passos Coelho e Paulo Portas: o novo rival é bem mais temível do que o seu antecessor. António Costa é um fenómeno da imprensa nacional, tem aquilo a que se chama “boa imprensa”. Repare-se no que a imprensa nacional nunca disse: passou quatro meses a percorrer o país em campanha eleitoral, ao mesmo tempo que recebia o vencimento de presidente da Câmara Municipal de Lisboa; participou nos Governos que fizeram falir o país; tem um percurso profissional apenas político; durante a campanha teve um discurso assustador de banalidades a que chamou “agenda para a década”, mas não disse uma palavra sobre o que isso é.

 

A partir de agora, António Costa tem um trabalho de campanha eleitoral que, ao contrário do que afirmou, não será de oposição ao actual Governo. Costa vai tentar convencer os portugueses de que a troika nunca existiu, que o memorando de entendimento nunca foi assinado, que não existem compromissos financeiros incontornáveis e que o desemprego vai baixar logo a seguir a tomar posse, caso vença as legislativas.

 

Na noite eleitoral socialista a sala dos apoiantes de António Costa parecia um Conselho de Ministros socratista, onde só faltou o próprio Sócrates, que, à mesma hora, estava na televisão pública a tecer elogios rasgados ao vencedor. Aterroriza-me a ideia de poder vir aí um novo Sócrates, com outra aparência.

 

alinhado por fcrocha às 09:34

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