Quinta-feira, 06 de Novembro de 2014

Censura moderna

 

 

 

 

Não sou do tempo da censura, mas diz-se que já houve um tempo em que uns senhores condicionavam a interpretação do mundo em Portugal e em que a comunicação social estava em constante ameaça. Diz-se até que os jornais eram então um orfeão dissonante, com o censor a tentar servir de regente, ao mesmo tempo que ditava a forma correcta de escrever, deformando a realidade ou, simplesmente, apagando o que não lhe interessava. O objectivo parecia ser sempre o mesmo: quanto menos conhecimento do mundo e menos participação cívica houvesse, mais fácil era controlar o povo.

 

Os mesmos que me contam estas coisas dizem também que, depois do 25 de Abril, o tal censor desapareceu e toda a imprensa conseguiu ter liberdade. Desde essa altura, os jornais locais e regionais passaram a ter uma importância maior, eram a voz de proximidade que chamava a atenção para as obras que faziam falta, que davam a conhecer pessoas locais que deviam ser motivo de orgulho para a população, davam a conhecer as decisões dos políticos que afectam directamente as populações.

 

Eu acredito que esse é, ainda hoje, a missão dos jornais regionais tais como o VERDADEIRO OLHAR. Acredito que este jornalismo de proximidade, para além de dar a conhecer a realidade do dia-a-dia de uma região, ajuda as populações que lá moram a terem espírito crítico e a formarem opinião.

 

É essa a importância real dos jornais locais e regionais, que, por isso, deveriam ser apoiados pelos cidadãos, em geral, e pelas autoridades locais, em particular. E, da parte destas – das autoridades locais – não se pedem subsídios, mas apenas a inteligência, a elegância e a cidadania de não nos arranjarem obstáculos.

 

Quando entenderão, de uma vez por todas, os responsáveis autárquicos que a missão dos jornais é a de informar e comentar aquilo que, no dia-a-dia, mais possa interessar ao cidadão e não, de forma alguma, a de ser caixa de ressonância dos executivos municipais, quaisquer que sejam? Se essa é a função que determinam para os boletins municipais, os eleitores avisados que tirem as suas conclusões, mas estender a sua intenção de controlo aos órgãos de comunicação social independentes – os que ainda persistem em sê-lo – é atitude agressiva da vivência democrática básica e própria de subdesenvolvimento moral e político.

 

Cabe aos jornais que persistem em ser independentes escrutinar, examinar, interpretar e comentar as acções políticas dos executivos locais e nacionais. Nem sempre essas conclusões coincidem com a imagem que as diversas forças políticas pretendem exibir, mas isso é um resultado inevitável da democracia que vigora em Portugal. É estar a regressar ao espírito da ditadura e do obscurantismo fazer censura – actualmente económica – sobre as vozes discordantes. É o que tem vindo a ser feito, recorrentemente, por certos autarcas: sempre que publicamos uma notícia que lhes é menos favorável, respondem cortando toda a publicidade institucional habitualmente publicada e deixando de honrar, até, compromissos comerciais anteriormente assumidos olhos nos olhos.

 

É este condicionamento do trabalho dos jornalistas que alguns presidentes de câmara estão a praticar nos nossos dias e que é necessário que os nossos leitores, concidadãos e eleitores conheçam. Para que possam tirar as suas próprias conclusões e, quem sabe?, ajudar-nos mais activamente na continuação do nosso esforço, de que, afinal, também beneficiam. Afinal, cada jornal que fecha é menos um instrumento de que o cidadão se pode servir para entender a realidade que o cerca e na qual, por vezes – demasiadas vezes?... – se sente pequeno perante instituições que deveriam estar ao seu serviço.

 

 

 

 

alinhado por fcrocha às 10:59

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