Quinta-feira, 23 de Julho de 2015

As cabras e os tugas

As cabras. O economista francês Alfred Sauvy contou uma vez uma história com um elevado significado. Dizia Sauvy que as cabras comem a pastagem e os lobos comem as cabras, mas felizmente para as cabras que os lobos não gostam de pastagem porque, se assim fosse, sendo mais fortes, comeriam a pastagem toda e as cabras não poderiam existir. Com base nesta análise resultam duas coisas: as cabras devem a vida a quem as come e o interesse dos lobos é o de que no terreno existam montanhas inacessíveis a eles para as cabras se refugiarem. Se um espaço é plano, os lobos multiplicam-se, comem as cabras todas e com o desaparecimento da última cabra desapareceram todos os lobos, mas se um espaço tem redutos inacessíveis, os lobos vão comendo apenas o “rendimento” sem tocar no “capital”, encontrando assim o crescimento óptimo que os permite ajustar ao crescimento do “rendimento disponível”.

 

Se adaptarmos este pequeno exemplo aos nossos dias, poderemos perceber que o que às vezes nos parece muito mau, também é bom. Utilizando o exemplo de Sauvy, parece-me que vivemos muitos anos em terreno plano a comer o rendimento e o capital. Os sacrifícios que quase todos temos feito ajudam-nos a salvaguardar algum do capital que ainda nos resta e a obriga-nos a comer apenas o rendimento, o que devíamos ter feito desde sempre.

 

Tugas. Porque o tempo é de férias e de descontracção, partilho uma estória que me contou um amigo e que ilustra um bocadinho do nosso comportamento. Na verdade, cada um de nós tem um pouco de taxista. Trata-se da conversa de um taxista com um elemento da Troika, entre o Aeroporto e o hotel.

 

"Hotel Tivoli? Daqui, do aeroporto, é um tiro... Então o amigo é o camone que vem mandar nisto?

A gente bem precisa. Uma cambada de gatunos, sabe?

E não é só aquele que está preso. É tudo igual, querem é tacho. Tá a ver o que é? Tacho, pilim, dólares.

Ainda bem que vossemecê vem cá dizer alto e pára o baile...

O nome da ponte? Vasco da Gama. A gente chega ao outro lado, vira à direita, outra ponte, e estamos no hotel.

Mas, como eu tava a dizer, isto precisa é de um gajo com pulso.

Já tivemos um FMI, sabe? Chamava-se Salazar. Nessa altura não era esta pouca-vergonha, todos a mamar. E havia respeito...

Ouvi na rádio que amanhã o amigo já está no Ministério a bombar. Se chega cedo, arrisca-se a não encontrar ninguém. É uma corja que não quer fazer nenhum.

Se fosse comigo era tudo prá rua. Gente nova é qu'a gente precisa.

O meu filho, por exemplo, não é por ser meu filho, mas ele andou em Relações Internacionais e eu gostava de o encaixar. A si dava-lhe um jeitaço, ele sabe inglês e tudo, passa os dias a ver filmes.

A minha mais velha também precisa de emprego, tirou Psicologia, mas vou ser sincero consigo: em Agosto ela tem as férias marcadas em Punta Cana, com o namorado.

Se me deixar o contacto depois ela fala consigo, ai fala, fala, que sou eu que lhe pago as prestações do carro.

Bom, cá estamos. Um tirinho, como lhe disse.

O quê, factura? Oh diabo, esgotaram-se-me há bocadinho."

alinhado por fcrocha às 11:41

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