Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2010

SEM HÁBITOS NÃO HÁ EDUCAÇÃO

“O Deus das moscas” é uma magnífica novela do Nobel inglês, William Golding. Conta a história de trinta crianças inglesas que são os únicos sobreviventes de um acidente aéreo. Sozinhas, devem organizar as suas vidas numa pequena ilha deserta, sem ajuda de nenhum adulto. Agrupados em torno dos chefes, Ralph e Jack, logo comprovam que coabitar não é uma tarefa simples. Aparecem os primeiros conflitos, difíceis de resolver na situação em que se encontram, e finalmente estala a violência, que desemboca numa guerra aberta entre eles, com trágicas consequências.

 

A história da difícil convivência entre estes jovens náufragos está salpicada de detalhes que mostram a importância fundamental dessa aprendizagem e desses valores que o homem acumulou durante séculos e que se transmite de uma geração para outra através da educação. Frente a outras visões mais ingénuas sobre a bondade das crianças, Golding mostra a maldade que se encontra escondida no coração humano e aponta que o único resgate do homem terá que vir de fora. Sem ajuda e sem formação, o homem encontra-se extremamente indefeso, diante do empurrão das suas tendências maldosas. È certo que busca por natureza o bem, mas também é certo que essa natureza está ferida e que necessita de muitos cuidados para funcionar correctamente.

 

Qualquer pessoa com um pouco de experiência da vida sabe o que é a maldade do homem, já viu muitas vezes o rosto feio da inumanidade. Golding desmascara esta simplicidade e bondade natural do homem e a sua progressiva degradação para a maldade radical da sociedade e da cultura. Ao mesmo tempo, questiona também o racionalismo arrogante do século XIX, que fez muitos confiar no progresso científico e económico e que traria consigo um progresso moral igualmente veloz. Os que alimentavam esse ideal pensavam que tinham encontrado a fórmula definitiva da eficácia e do bem-estar, mas logo viram que aquele optimismo era precipitado, que esse avanço não significava que os homens se entendessem melhor entre eles, nem que haja mais respeito mútuo, nem que vivam em paz. O que é certo é que por maior que seja o progresso económico e cientifico que se alcance, nunca será fácil educar moralmente o homem.

 

Todo o homem, para ser bom, ou para manter-se no bem, necessita de ajuda para fazer render os talentos ocultos que contém. É certo que afinal é sempre a própria liberdade quem tem a última palavra, mas seria bastante ingénuo menosprezar a enorme influência que tem a formação. Por isso, educar bem os filhos na família, os alunos na escola ou universidade, ou qualquer outra tarefa relacionada com a formação das novas gerações deveria ser considerada como um dos objectivos maiores e de maior transcendência e responsabilidade em qualquer sociedade que realmente pense no futuro.

 

Transmitir o progresso científico e económico é relativamente fácil, mas transmitir os progressos morais sempre será difícil, pois requerem a sua assimilação pessoal e o seu exemplo prático. É imprescindível o esforço pessoal para se adquirir esses hábitos. E isso será sempre custoso, em qualquer época ou lugar. É um progresso pessoal que nos leva a vida inteira e que depende da nossa forma de viver. Bem merece, por isso, a nossa atenção.

alinhado por fcrocha às 20:21

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