Quinta-feira, 26 de Maio de 2011

Está obeso.

Este período de campanha eleitoral tem sido diferente de todos os que já assisti: quase não há promessas, há apenas tentativas de atirar a culpa para alguém. Não dá para disfarçar que o país está numa situação económica difícil, mas ninguém assume a responsabilidade das contas, mesmo que para o problema tenham contribuído todos os partidos que nos governam desde 1974. O país tem tido muitos políticos e pouquíssimos governantes.

 

A verdade é que Portugal precisa mesmo que o próximo Governo comece a governar. Governar enfrentando a questão, sempre delicada, séria e grave, das finanças públicas. Já chega de falar do passado, é preciso falar do futuro. Para falar do futuro é preciso solucionar os problemas do presente, que é, como todos sabemos, um problema sério e estrutural de finanças públicas.

 

O próximo Governo terá que ser um Governo com coragem para ir à raiz do problema, que é um Estado demasiado gordo que gasta demais. A solução deste problema estrutural é diminuir de forma significativa a despesa do Estado. A despesa do Estado não pode continuar a crescer ao ritmo que cresce a riqueza do país. Para que isso seja possível, é preciso diminuir o Estado e rever as suas funções. O Estado é enorme e está presente em toda a sociedade: é o maior empregador, é prestador de serviços, é regulador e até financiador. Quando Estado intervém em tudo, acaba por não fazer tudo bem, faz concorrência desleal a quem consegue fazer melhor e traz mais encargos para cada cidadão. A título de exemplo, creio que é urgente entregar à iniciativa privada a educação, os transportes e parte da acção social.

 

Logo após a tomada de posse, o próximo Governo deveria fazer um debate sério sobre as funções do Estado. Há sectores públicos onde a iniciativa privada faz melhor com menos dinheiro. Acredito que o problema das contas públicas não se resolve com mais impostos. Resolve-se com mais economia privada e menos Estado.

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Quarta-feira, 25 de Maio de 2011

CARTA ABERTA DE UMA JOVEM AO PRIMEIRO-MINISTRO

Pareceu-me ouvir nas notícias que estaria a falar aos jovens de Portugal, mas admito que tenha havido um mal-entendido Senhor primeiro-ministro: chamo-me Catarina, tenho 25 anos, e queria pedir-lhe um ou outro favor.
 
Vi com atenção, como aliás é meu costume, a sua declaração ao país depois da manifestação do passado dia 12 de Março. Afinal, é o senhor que conduz os destinos do nosso país (ou pelo menos tenta, porque a condução do destino é um assunto bem mais filosófico para lhe estar entregue só a si...)!
 
Pareceu-me ouvir nas notícias que estaria a falar aos jovens de Portugal, mas admito que tenha havido um mal-entendido - tem acontecido várias vezes desde que os nossos compatriotas o escolheram para o cargo que ocupa. Espero que por isso não termine a sua leitura por aqui, não me esqueço que no seu discurso de tomada de posse afirmou o seu desejo de ser chefe de um governo de todos os portugueses. Ah, e portuguesas, claro, para não discriminar.
 
Pois qual não foi o meu espanto quando me parece ter ouvido - reitero, talvez erroneamente, embora já me tenham garantido o repetiu mais recentemente - que o senhor percebia os problemas dos jovens e, exactamente por isso, tinha feito aprovar as leis do aborto, do casamento homossexual, do divórcio, da paridade, e mais uma ou outra - que elas foram tantas em seis anos - certamente moderna.
 
O favor que lhe vinha pedir é se não conseguia aprovar uma lei para mim, que sou jovem, e sou portuguesa. Decerto não acreditará, mas eu:
 
- Não sou casada e, logo, não estou a pensar divorciar-me. Aliás, se estivesse casada, e de algum mal sofresse o meu casamento, gostaria que me ajudasse certamente a concertá-lo e não a desconcertá-lo, que para isso já bastaria eu...
 
- Não estou grávida, até porque não sou casada e, logo, não estou a pensar abortar. Mas, se estivesse casada, e estivesse grávida, certamente não iria desfazer-me de um filho. Ou de uma filha, para não discriminar, claro. Aliás, se estivesse grávida, e se tivesse alguma dificuldade, gostaria que me ajudasse a encontrar as melhores condições para que a alegria de ter um filho não viesse só...
 
- Apesar de não estar casada nem grávida, também não sou homossexual. Aliás, penso que já me apresentei, sou a Catarina. E, perdoe-me o conservadorismo, não costumo partilhar a minha intimidade com ninguém - até porque não sou casada - muito menos com o senhor primeiro-ministro, portanto, como lhe hei-de dizer isto, é um assunto que não me ocupa, esse que inventaram, da orientação sexual.
 
O favor que lhe vinha pedir - é só um, ou outro - era se pudesse entretanto arranjar uma maneira de, quando eu me casar e tiver filhos, poder escolher a escola para onde eles vão, porque não queria que os meus filhos andassem numa escola onde falam de sexo intervalado com matemática e geografia, e onde ensinam que abortar não faz mal (eu cá acho que faz, o senhor não acha?), e que é igual casar com homens ou mulheres, e essas coisas? Se calhar sou um bocadinho conservadora, mas como nenhuma das leis que aprovou me ajudou... Ah! Antes que me esqueça, as escolas onde ensinam estas coisas que eu gostava que os meus filhos soubessem (que os homens casam com as mulheres e têm filhos sem os matar, e que é possível construir uma família que dure até ao fim da vida, e essas coisas), se for reeleito (o que me perdoará não desejo) não vai continuar a tentar dificultar-lhes a vida, pois não?
 
Em nome da liberdade de educação dos filhos que um dia gostaria de ter, ficava-lhe muito agradecida, senhor primeiro-ministro.
 
Catarina Almeida, Associação Vida Universitária
 
 
Fonte; Público, 2011-05-21

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Terça-feira, 24 de Maio de 2011

Portugal e os portugueses são capazes de fazer melhor

Um fraco rei faz fraca a forte gente, escreveu Luis de Camões. Mal sabia ele como o destino próximo (D. Sebastião) e o destino longínquo (a quase bancarrota de 2011) lhe dariam razão. Mais: como a história da Humanidade nestes cinco séculos confirmaria uma intuição que, mais do que assente na fulanização dos destinos colectivos, permite compreender a importância das instituições e das políticas no sucesso e no insucesso das nações. Convém recordá-lo para recuperarmos a esperança, pois se não podemos mudar de povo, podemos de hábitos e de líderes.

 

Max Weber associou, no princípio do século XX, o sucesso do Ocidente (e o triunfo do capitalismo) ao tipo de cultura que se desenvolvera na Europa do Norte a partir de Idade Média e ao que designou de "ética protestante". Mais recentemente David Landes, em A Riqueza e a Pobreza das Nações, desenvolveu esse argumento mas reconheceu também a importância das instituições. Por fim, o historiador Niall Fergusson, numa obra acabada de publicar - Civilization, The West and the Rest -, chama a atenção para o facto de, mesmo considerando que as instituições e as lideranças são fruto da cultura de uma nação, a imposição de instituições erradas poder "tornar fraca a forte gente". E dá três exemplos do século XX: os destinos diferentes dos alemães na RFA e na RDA, dos coreanos do Norte e do Sul e dos chineses na República Popular ou em Hong Kong e na Formosa.

 

Servem estas brevíssimas referências a uma antiga discussão - o porquê do triunfo do Ocidente - para sublinhar um ponto que, nestes dias de sombras e de ruínas, tem sido muitas vezes esquecido: Portugal e os portugueses são capazes de fazer melhor. Os portugueses fazem todos os dias melhor quando enquadrados por instituições mais saudáveis e em ambientes onde os estímulos são os correctos, como mostram os nossos emigrantes ou como se comprova na Autoeuropa (onde o Código do Trabalho não é cumprido, mas é cumprido o acordo com os trabalhadores). E Portugal foi, entre 1960 e 1998, um país apontado como exemplo de crescimento e rápida modernização, um país que viveu dois booms impressionantes (entre 1965 e 1973 e na segunda metade da década de 1980).


Ou seja, foi e é possível. Desde que os tempos sejam de mudança.

 

Na sua comunicação ao país, o Presidente da República sublinhou a importância de "aproveitar este tempo difícil" para "mudar de vida e construir uma economia saudável". Disse mesmo que não temos outra opção senão "acabarmos com vícios que afectam o funcionamento do Estado, das empresas e dos mercados". O que passa por "trabalhar melhor e poupar mais". Resta saber como fazê-lo.

 

Niall Ferguson procurou, na obra citada, sistematizar o "conjunto de instituições e de ideias e comportamentos" que permitiram o rápido desenvolvimento do Ocidente até uma hegemonia mundial para a qual, há 500 anos, o milenar Império Chinês parecia mais fadado. E o primeiro factor que identificou foi a existência, na Europa, de uma forte concorrência não só entre Estados, como no interior de cada Estado, concorrência essa que potenciou a inovação e levou a que se procurasse sempre mais e melhor. "Porque é que Vasco da Gama procurava de forma tão desesperada a riqueza - e matava em nome dela?", interroga-se Ferguson depois de descrever algumas das brutalidades do grande navegador. "Podemos ver a resposta olhando para o mapa da Europa medieval, onde encontraremos centenas de Estados que competiam entre si".

 

Se pensarmos que um Mercedes ou um BMW são fruto da concorrência pela excelência e que um Trabant representava o maior triunfo do "planeamento estatal", não é difícil transpor para a actualidade a importância deste primeiro factor identificado por Ferguson, até porque ele simboliza bem o que separava a cultura política da triunfante RFA das opressivas regras da RDA. Numa escala diferente, sem sairmos da referência central do Estado de direito democrático, a experiência sueca também nos mostra como a introdução de concorrência na prestação dos serviços públicos permitiu resgatar o Estado social da falência. Há 20 anos, o Estado sueco ainda assegurava o monopólio absoluto da prestação de serviços sociais e oferecia regimes de protecção tão vantajosos que corroeram a ética do trabalho, pois quase não era necessário trabalhar para viver confortavelmente. Até que o país cuja economia mais crescera em todo o mundo nos 150 anos anteriores entrou em crise, percebeu os limites do seu "Estado-ama-seca" e escolheu políticos que propunham a liberdade de escolha entre prestadores de serviços públicos. Em duas décadas a Suécia trocou o seu "Estado-tutor" por um "Estado facilitador", reduziu em quase 20 pontos a despesa pública, retomou o crescimento económico e até tem conseguido reduzir a sua dívida pública.

 

Introduzir mais concorrência em todos os sectores da nossa vida económica e social, inclusive na Administração Pública, não requer reformas muito complicadas, mas fará com que todos, mesmo os instalados, se sintam menos confortáveis nas suas inércias e sejam obrigados a trabalhar melhor. A 5 de Junho também temos de fazer essa opção, mesmo que isso comporte sempre algum risco. Só que o nosso maior risco é não mudar. Do que devemos ter medo é da paralisia defensiva.

 

José Manuel Fernandes
Público, 2011-05-13

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Segunda-feira, 23 de Maio de 2011

Fartos disto

Nas campanhas e pré-campanhas eleitorais, há gente que vira o seu discurso normal e inteligente para conversa de motorista de táxi (sem ofensa para os motoristas de táxi). Como não quero ofender esses profissionais, direi que o valioso argumento também é usado por alguns ouvintes profissionais, participantes dos fóruns de debate matinais das rádios e reza assim: "Os políticos são todos iguais, uns ladrões". Simultaneamente, sentenciam que a classe política que nos governa só merece ser presa, chegando mesmo alguns, com linguagem mais colorida, a declarar pena de morte, sussurrando com raiva e entredentes: "Eu matava-os a todos!".

 

Há ainda quem acrescente com ar saudoso: "O que nos falta é um ditador para pôr os desgraçados políticos na ordem e nos vermos assim livres de quem nos rouba todos os dias". Necessitamos de um Salazar, asseguram! Ou, então, outros mais saudosos do pós-25 de Abril e dos tempos da revolução asseguram que já não há políticos como os de antigamente, recordando com auréolas, não de santos mas antes de coroas de louros, nomes que fizeram história. Esquecem-se que tivemos também primeiros-ministros à frente do leme nacional como Vasco Gonçalves ou Pinheiro de Azevedo, quando andávamos alegremente em PREC revolucionários que achavam (ou melhor achávamos) que espantavam o Mundo.

 

O que espanta mesmo é o facto de estas teses serem defendidas sempre que há eleições, num coro de vozes a que alguma comunicação social dá tribuna. Nunca vi tal coisa em países de grande tradição democrática. Mas este barulho de fundo que acompanha os nossos actos eleitorais descredibiliza a democracia e, pior que isso, nivela todos os políticos, alguém a quem se chama "classe política" pela indignidade, a corrupção e a desonestidade.

 

Esta situação tem consequências dramáticas para quem encara a política como uma missão, como uma entrega ao bem comum, mas tem uma que sobreleva todas as outras: é que cria uma amnistia, um rótulo benigno sobre os que se servem da política gerando a ideia de que é mesmo assim, faz parte, já sabemos. Cria-se um véu de impunidade e de banalização da corrupção, da sem vergonha e da ausência de ética que põe em perigo a democracia e foi um dos factores que levaram Portugal ao estado triste e vergonhoso em que hoje se encontra. No entanto, é preciso consciencializar que a grande vantagem da democracia é exactamente a alternância. Mudar quem está no poder e não eternizar esse poder nas mesmas mãos anos de mais. Nem vale a pena referir as vantagens de afastar clientelas políticas que sem alternância se eternizam, não a servir o país mas a servir-se do poder, mas centralizar a atenção nas políticas, na capacidade de invertê-las, de arrepiar caminho, corrigir erros e injustiças que nos levaram ao abismo onde hoje Portugal se encontra.

 

A alternância do poder entre Direita ou Esquerda, ou entre conservadores e trabalhistas, é o que move as democracias e as diferencia das ditaduras populistas, muitas vezes assentes em eleições fantoches que eternizam ditadores no poder. Por isso, as democracias são sempre mais capazes de criar justiça social, de defender os mais pobres e criar mais justiça social com melhor repartição da riqueza de um país.

Por isso, as ditaduras terminam com ditadores em fuga, deixando um rasto de muito sacrifício e de muitas vítimas de gente de coragem. Nas democracias, com todos os defeitos e as crises que por vezes as tocam, a mudança é possível e a arma é o voto. Só a mudança pode trazer alguma esperança a um país em recessão, sem futuro, endividado e empobrecido.

 

Zita Seabra
Jonal de Noticias, 2011-05-15

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Quinta-feira, 19 de Maio de 2011

O ESCÂNDALO DA CRUZ

Colin Atkinson está a passar as passas do Algarve em terras da sua graciosa majestade britânica. Com efeito, foi-lhe instaurado um processo disciplinar pela Wakefield and District Housing, de que é, desde 2006, funcionário. O motivo é insólito, porque este electricista não falta ao trabalho, não é incompetente, não desrespeita os patrões, não implica com os colegas, não é indelicado com os clientes. O crime de Atkinson é ser cristão e ter o atrevimento de usar uma singela cruz no parabrisas do carro de serviço. Se fosse uma figa, uma ferradura ou um peluche, ninguém se incomodaria, mas uma cruz é, pelos vistos, intolerável e, por isso, Colin Atkinson corre sérios riscos de ser posto na rua, mas desta vez sem a viatura.

 

É da praxe, em certos veículos pesados, a exibição de «posters» de muito mau gosto, mas ninguém fica perturbado pelo facto, nem é razão para uma sanção laboral. Que uma pessoa ande escandalosamente trajada na via pública – seja uma mulher de barriga ao léu, ou um rapaz de cuecas à mostra – não é tido por indecente. Mas se um crente usar um discreto símbolo religioso, é logo acusado de agredir o próximo, nomeadamente quantos não professam a sua religião. Para a responsável Jayne O’Connell, a pequena cruz que Colin Atkinson usa no seu carro poderia ofender as pessoas e é política da Wakefield and District Housing «ser respeitosos com todas as confissões e pontos de vista». Menos o cristão, claro. 

 

Diga-se de passagem que tem o seu quê de absurdo este dogma laicista. Porque carga de água uma cruz há-de ser insultuosa para os não cristãos, se nenhum cristão se sente ultrajado por um crescente, ou por uma estrela de David? E porque não entender que um amuleto é também ofensivo, não apenas para a fé, mas também para a razão? E as orquestras, não serão acintosas para os surdos? E os museus, não são também, vistos por esse prisma, desrespeitosos para com os invisuais? Será que as fotografias dos familiares do anfitrião são indelicadas para os seus convidados, só porque não são os parentes deles? Ou seria desejável que o dono da casa retirasse todos os retratos de família, cada vez que recebe alguém?

 

No Restelo, há uma escultura de Mohandas K. Gandhi, por onde passo com frequência e confesso que nunca me senti ofendido por aquela estátua. Agrada-me esta merecida homenagem ao insigne apóstolo da paz, embora não siga a sua espiritualidade, não partilhe a sua opção vegetariana, nem concorde com algumas das suas atitudes morais. Não creio que a ninguém lhe cause incómodo a efígie do Mahatma na via pública, a não ser que a singeleza do seu trajar provoque, em pleno inverno, alguns arrepios aos transeuntes mais friorentos. Mas isso não quer dizer que a sua imagem seja agressiva para os amantes de mais tépidas temperaturas, como também o facto de não ser cristão o não faz insolente para quantos o somos, graças a Deus.

 

A ideia de que qualquer opção cultural, religiosa ou não, que não seja politicamente correcta, deve ser ocultada e suprimida é, na sua essência, totalitária. A proibição de manifestações externas de culto, mais do que um ataque às religiões, é um atentado à liberdade. Não é por acaso que os inimigos da liberdade o são também da presença pública de símbolos religiosos. Por isso, Estaline arrasou inúmeras igrejas e Salazar não permitiu que a sinagoga de Lisboa fosse visível da via pública.

 

Há menos de um século, um tresloucado líder político europeu propôs-se erradicar da face da terra a raça judaica. Chamava-se Hitler, Adolf Hitler. Temo que os modernos inimigos do divino crucificado, também ele judeu, sejam uma nova modalidade do mesmo ódio. Depois de proibirem todas as manifestações públicas da fé cristã, é provável que se proponham também exterminar o povo que tem, por seu Senhor e Mestre, a Jesus de Nazaré e, por bandeira, a sua santa cruz.

 

Gonçalo Portocarrero de Almada
Público, 2011-05-16

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Quinta-feira, 12 de Maio de 2011

Toca a acordar!

Faltam três semanas para as eleições legislativas, onde o povo vai poder escolher entre continuar com um governo que levou o país à bancarrota ou um novo governo. Todas as sondagens mostram que o povo ainda não decidiu se quer correr com quem nos deixou praticamente a pão e água. Eu sei que o PSD apresentou um programa eleitoral pouco ambicioso, mas o PS continua a apresentar como candidato um líder que mentiu e quase faliu o país.

 

Para se perceber melhor a confusão de ideias e valores que por aí anda, vejam este exemplo. Esta semana, fez-se muito ruído pelo facto do hino de campanha do PSD ter um erro ortográfico. Na mesma semana, o deputado Ricardo Rodrigues pediu uma indemnização de 35 mil euros a dois jornalistas por lhes [ele, Ricardo Rodrigues] ter roubado dois gravadores. Sobre isto, nem uma palavra se ouviu. Confesso que não consigo entender como é que a opinião pública e a comunicação social nacional toleram que o cabeça-de-lista socialista pelos Açores às próximas eleições legislativa seja um tipo que roubou dois gravadores a jornalistas, foi acusado pelo Ministério Público por crime de atentado à liberdade de imprensa e informação, que aparece agora a pedir uma indemnização por ter roubado.

 

Mas esta perversidade é transversal. Veja-se, por exemplo, a comunicação que José Sócrates fez ao país para dizer apenas o que o FMI não vai fazer, esquecendo-se, de forma espantosa, de dizer quais serão as medidas a aplicar. O professor Daniel Bessa, a propósito das declarações do Primeiro-Ministro, disse o seguinte: [José Sócrates] “faz-me lembrar um jogador de casino, que acha que há ainda uma última hipótese de sair aquela sorte grande, que nunca tinha saído, e que o pode salvar”.

 

Estamos a viver um dos períodos mais difíceis da História do nosso país, por isso, as próximas eleições ganharam uma importância acrescida. Em causa não estará apenas a eleição do próximo governo, estará em causa a continuidade da democracia. Se muitas vezes as urnas serviram para punir, desta vez poderão servir para salvar o país.

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Terça-feira, 10 de Maio de 2011

Senhoras e senhores, respeitável público, liguem a televisão e verão algo nunca visto

Pela primeira vez diante dos vossos respeitáveis olhos, um governo que conduziu um país à falência e que teve de negociar in extremis um acordo para pagar salários e juros aos credores apresentou-se como vencedor perante o povo.

 

A comunicação ao país de José Sócrates na terça-feira à noite foi um número de ilusionismo em que nem sequer faltou o mistério da proibição da tomada de fotografias por parte de fotógrafos alheios ao gabinete do primeiro-ministro e o suspense de um ministro das Finanças esfíngico como se fosse partenaire no número das facas.

 

Como convém aos espectáculos de magia, no fim ouviu-se dizer que tinha corrido bem, entendendo-se aqui o bem no sentido da prestidigitação. Ou seja, sabe-se que se foi enganado, até gozado (a propósito de gozo, quem além do nosso primeiro-ministro fala de privatização da escola pública?) mas a cada actuação do artista em questão - há largo tempo que a figura de primeiro-ministro foi substituída pela de performer de ilusionismo - acaba sempre a tornar-se consensual que o número correu bem pois ninguém percebeu para onde foram as pombas, nem os coelhos, nem a mulher, nem as cartas, adereços que nas prestações deste nosso artista entrincheirado em S. Bento não são pombas, nem coelhos, nem mulher, nem cartas que desaparecem mas sim buracos orçamentais, número de desempregados, dados sobre a segurança interna, resultados efectivos da frequência das Novas Oportunidades e da distribuição de computadores Magalhães ou o balanço das operações de compra e venda do património estatal à Estamo.

 

Esta relação entre o ilusionista e o seu público tornou-se de tal modo indispensável ao nosso quotidiano que mal o espectáculo terminara já Francisco Assis avisava que era preciso não entrar em euforia. Qualquer criatura que não estivesse imbuída deste clima de show mágico perguntaria imediatamente onde é que pode haver euforia num país que pediu 78 mil milhões de euros, que tem impostos altos e vai aumentá-los mais ainda, que tem a maior dívida externa dos últimos 120 anos e que regista um desemprego-record. Mas nós já perdemos a noção do real. O que nos interessa é a eficácia da encenação.

 

No seu blogue, Henrique Raposo comparava há dias os comentários gerados por duas notícias surgidas quase em simultâneo. Uma delas dava conta da letra do hino do PSD para esta campanha, a outra relatava que 600 mil crianças tinham perdido o abono de família. Como é mais ou menos esperado, a vírgula mal colocada no hino do PSD gerou uma catadupa de comentários e afectou a imagem de Passos Coelho enquanto líder. Pelo contrário, as 600 mil crianças que perderam o abono não suscitaram grande interesse e de modo algum beliscaram a imagem sempre vitoriosa de José Sócrates. Conclui Henrique Raposo: "Aproveitar o ruído do PSD para esconder o fracasso absoluto da governação PS é uma coisa inaceitável." Mas só seria inaceitável no plano da racionalidade. Ora nós estamos no meio de uma coisa delirante que dá pelo nome de "Admirável show de José Sócrates, o ilusionista que nunca falha".

 

Entre 2009 e 2011 este "maior espectáculo do mundo do admirável show de José Sócrates, o ilusionista que nunca falha" passou do ambiente feérico das grandes tendas de eventos cheias de comboios de alta velocidade e aumentos à função pública para umas aparições constrangedoras que recordam precisamente aqueles circos pobres que deambulavam pelo país, sem leões nem elefantes, sem trapezistas nem bailarinas. Apenas umas famílias, umas pombas, uns cães e às vezes um burro. Mas continuavam a anunciar-se como o maior espectáculo do mundo. E o povo continuava a correr para assistir e bater palmas. E continua até porque no "Admirável show de José Sócrates, o ilusionista que nunca falha" cada um dos dez milhões de portugueses tem uma participação prevista, quanto mais não seja como partenaire contribuinte.

 

Por: Helena Matos (Público, 2011-05-05)

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Segunda-feira, 09 de Maio de 2011

May Feelings 4

Porque estamos em Maio, há segredos que merecem ser revelados.

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Quinta-feira, 05 de Maio de 2011

Um povo anestesiado.

Esta edição trata particularmente de saúde. Noticiamos a falta de saúde financeira das câmaras municipais e os cortes nos serviços de saúde aos utentes.

 

Há quase um ano, noticiámos e alertámos para a redução do horário de funcionamento do Serviço de Atendimento de Situações Urgentes (SASU) de Paredes. Na altura, e depois de assistir ao encerramento do Serviço de Atendimento Permanente (SAP), escrevi aqui neste mesmo espaço que, mais dia, menos dia, o SASU também iria fechar. Infelizmente, o tempo acabou por me dar razão: o SASU fechou.

 

É importante referir que, desde a extinção do SAP até ao encerramento do SASU, não houve um único político, do executivo municipal à oposição, que tomasse uma postura sobre este assunto. Na Assembleia Municipal de Paredes, realizada na passada sexta-feira, o presidente da autarquia anunciou a construção de um auditório com 500 lugares, “o maior da região”, segundo o autarca. Fico com a ideia que os 500 lugares do novo auditório, que a Câmara disse que vai construir com verbas de um projecto de financiamento aprovado (mesmo que não saiba dizer quanto vai custar, qual é o montante financiado, onde vai ser construído e quando vai estar pronto), servirão para os utentes do SASU passarem a noite, enquanto aguardam pela abertura do centro de saúde no outro dia de manhã. O povo continua a ser tratado como estúpido.

 

O encerramento do SASU vai sobrecarregar, ainda mais, a urgência do hospital. É lamentável que o Ministério da Saúde retire serviços às populações, sem lhes dar alternativa e tentando fazer-lhes crer que a retirada de serviços médicos melhora o seu acesso aos cuidados de saúde. Fechar a porta de entrada no sistema de saúde é socialmente injusto, tecnicamente insensato e moralmente absurdo. Os resultados financeiros podem ser os melhores, mas serão conseguidos à custa do sofrimento dos doentes. Prometem-nos mais rapidez, mais qualidade, mais segurança para iludir a compulsão pelos cortes cegos, pela poupança forçada a qualquer preço.

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Terça-feira, 03 de Maio de 2011

O sentimentalismo

Na maneira de actuar, o seu exemplo era admirável. Dava-se bem com todos. Fazia-o de tal modo que, à primeira vista, parecia o mais fácil e natural deste mundo. Parecia ser muito feliz — notava-se no optimismo à prova de fogo — e era evidente que não procurava essa felicidade no estreito mundo do egoísmo. Todos — sem excepção — pareciam cair-lhe bem e ele, sem grande esforço, era estimado por quase toda a gente.
 
Um dia, um amigo perguntou-lhe como era possível que gostasse com tanta facilidade de todas as pessoas que tinha à sua volta. Isso não parecia muito “normal” nem era, nos dias que correm, uma atitude comum. Como era possível que ninguém o irritasse de vez em quando. Como era possível que não cedesse, alguma vez, ao espírito crítico — espírito que nos acompanha sempre: desde o momento em que tomamos consciência de quem somos até ao último dia da nossa vida.
 
A sua resposta deixou o amigo pensativo. «Como te deixas levar pelo simplório erro de pensar que eu sempre me sinto bem com toda a gente? Claro que não. No entanto, a estima pelos outros não é uma questão de sentimentos. A caridade genuína não se sente: põe-se em prática».
 
E então, como quem sabe aquilo que diz porque o vive, acrescentou com simplicidade: «Actuar é sempre a melhor forma de querer as pessoas como são. Se ajudamos os outros de verdade — sem interesses ocultos ou segundas intenções — acabamos de facto por gostar deles. Apercebemo-nos da grandeza do seu modo de ser que, em todo o ser humano, é sempre único e irrepetível».
 
Esta sábia resposta faz-nos chegar a uma natural conclusão: não é possível gostarmos de verdade dos outros se nos deixamos levar somente pelos sentimentos. Porque o vento dos sentimentos é muito instável: ora sopra para um lado, ora sopra para o outro, ora não sopra; ora é impetuoso, ora é ameno; ora é uma brisa, ora é uma tempestade.
 
É verdade que o amor autêntico possui, muitas vezes, manifestações sentimentais. Nunca gostaremos verdadeiramente de ninguém se cultivamos um modo de ser frio e distante — um modo de ser egoísta. São infelizes aquelas pessoas que parecem não ter coração. Mais tarde, descobrimos que possuem um coração raquítico que ficou assim por estar centrado somente neles próprios. O caminho do egoísmo pode apresentar-se, na aparência, como uma estrada ampla e confortável. Contudo, não nos enganemos nem nos deixemos ludibriar: o egoísmo termina sempre num beco sem saída.
 
No entanto, também é verdade que seria um erro funesto confundir o amor com o sentimento. A essa confusão, comum hoje em dia, chama-se sentimentalismo. O sentimentalismo é uma deformação do amor bastante perigosa. Leva uma pessoa a pôr o emocional por cima do racional; a pensar com o coração em vez de pensar com a cabeça.
 
Algumas vezes, os sentimentos posicionam-se contra o verdadeiro amor — e mentem com quantos dentes têm na boca: e têm muitos. O amor genuíno nunca mente; os sentimentos, sim, podem mentir. Nesse caso, amar de verdade significa não nos deixarmos conduzir por esses sentimentos desordenadas do nosso coração.
 
Pe. Rodrigo Lynce de Faria

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