Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011

O coitadinho

Esta semana, ficou meio país chocado com a divulgação de um vídeo gravado no interior do Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira, onde se via o Grupo de Intervenção de Segurança Prisional (GISP) a disparar uma arma eléctrica sobre um recluso. O Bloco de Esquerda apressou-se a chamar de imediato ao Parlamento o Ministro da Administração Interna. Por sua vez, o Ministro deu-se logo ao trabalho de criticar a actuação dos guardas prisionais, mesmo sem conhecer o resultado do inquérito.

 

Vamos por partes. O recluso em causa, conhecido no meio prisional como “O Animal”, desobedeceu às autoridades e tem no historial a passagem por oito prisões, tendo provocado distúrbios em todas elas. Para além disso, a “vítima” é um preso que urinou e espalhou as suas fezes pela cela e se recusou a limpar, para além de ter partido tudo o que dava partir dentro da mesma. Há que ter em conta que o vídeo foi feito pelos próprios guardas prisionais, o que significa que não pretenderam esconder nada. Às tantas, também não era mau recordar que o meio utilizado foi uma arma que dá uns choques eléctricos, tão graves que os próprios polícias usam neles próprios nos treinos que fazem.

 

A sociedade chegou a um ponto tal em que até os reclusos têm mais direitos que deveres. Podem fazer as suas necessidades nas celas sem ter de as limpar. Podem partir tudo sem ter que reparar ou pagar por isso. Podem até jogar Playstation e reclamar, como aconteceu na prisão de Caxias, por não terem a versão mais recente do FIFA.

 

Deixo aqui uma sugestão aos deputados bloquistas, e todos os outros que se mostraram solidários com “O Animal”: porque é que não organizam umas jornadas parlamentares numa prisão portuguesa? Melhor, porque é que não começam já pela cela deste recluso e aproveitam para limpa-la?

 

Desrespeitar e desautorizar as forças de autoridade, deixando ao abandono homens e mulheres que juraram dar a vida para defender os outros, fazer cumprir a lei e manter a ordem, não costuma dar grandes resultados.

alinhado por fcrocha às 19:42
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Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011

Sugestão de Leitura: "A Bíblia contada às crianças" e "Conspiração 365"

A Bíblia contada às crianças

Editora: Paulus Editora

Preço: €26,00

 

 

 

Para os que, como eu, são cristãos é necessário repetir e ensinar a cada nova geração essa verdade tão simples, mas fundamental para uma vida cristã bem sucedida, que é a Bíblia. A melhor maneira é lendo-a.

 

Na Bíblia, tudo é incrivelmente simples. Tão simples que a Paulus Editora publicou uma Bíblia juvenil. Este livro de grande qualidade está totalmente ilustrado e apresenta passagens seleccionadas de todos os livros da Bíblia, numa linguagem atraente para crianças e jovens.

 

Esta Bíblia está impressa em grande formato e tem 448 páginas.

 

 

 

Conspiração 365

Autor: Gabrielle Lord 

Editora: Contraponto

Preço: €8,30

 

 

Já que estamos nas sugestões para o público juvenil, aconselho doze livros. Calma, não se assustem, é um por mês.

A Contraponto trouxe para Portugal uma série de livros que vai render os leitores a esta inovadora forma de contar uma história. 

O livro tem muitas particularidades que vão prender o leitor, para além da história de cortar a respiração: as páginas estão numeradas de forma decrescente; a cada momento é-nos dito quantos dias faltam para o fim da histó

 

ria; E cada livro é publicado quase em tempo real, um por mês a custos muito reduzidos.

 

Nas livrarias já temos os livros de Janeiro e Fevereiro. O de Janeiro começa com o relato de Callum Ormond, um jovem de 15 anos australiano e cuja vida sofre uma drástica mudança devido à morte repentina do seu pai. O resto, é para ler.

 

A escrita de Gabrielle Lord é simples e objectiva, concentrando-se exclusivamente no necessário e colocando de parte qualquer pormenor ou detalhe sem interesse. Assim, o leitor é encaminhado para uma viagem ao estilo cinematográfico em que consegue, com uma certa clareza, imaginar cada situação, cada personagem e cada perigo diante dos seus olhos.

 

Garanto-lhe que esta série, que inicialmente lhe sugeri para adolescentes, vai atrair público mais crescido. O livro é excelente e vai proporcionar umas excelentes horas de ansiedade. Calma! O fim da história chega já: dia 31 de Dezembro.

 

 

 

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Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

Sem rumo

Esta semana, alguém com gosto para a provocação e para a sátira, colocou no gradeamento da antiga – ou futura – biblioteca municipal de Paredes um cartaz onde se lia: “Inauguração da Biblioteca Municipal dia - 30 de Fevereiro”. Se é certo que o cartaz não passou de uma brincadeira, o facto de a biblioteca estar fechada há vários anos é um assunto sério. Não se compreende como é que um município jovem, como o é Paredes, seja o único na região que não tem uma biblioteca pública. Se tivermos em conta que a Câmara Municipal fez obras de ampliação e modernização, obras essas que custaram muitos milhares de euros e que estão concluídas há vários anos, compreende-se ainda menos que a mesma esteja fechada. Não conheço nenhum dos factores de impasse à reabertura da biblioteca, da mesma forma que também não conheço em que condições se encontra, e onde está, o espólio da antiga biblioteca, mas não duvido que todos esses factores são imputáveis a uma política cultural desnorteada e totalmente desorientada. Uma estratégia cultural falhada – ou a falta dela – é responsável por esta lacuna.

 

A biblioteca é uma das muitas formas de acesso à cultura por parte do pequeno consumidor, por parte do comum dos cidadãos e dos jovens em particular. A cultura, tal como qualquer outra actividade, deve ser praticada, exercida e vivida por todos. Garantir o acesso a uma biblioteca é dar meios de crescimento, de formação e de pleno desenvolvimento do indivíduo.

 

Se em muitos concelhos de Portugal a carência de espaços e de material dificultam a instalação de uma biblioteca, não se compreende como é possível que em Paredes, onde há instalações e legado, a biblioteca continue fechada ao público sem previsão de abertura. A Câmara Municipal tem a responsabilidade pública de dar uma explicação para esta lamentável situação e, entretanto, solucioná-la.

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Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

Sugestão de Leitura: Um acto de amor

Esta semana sugiro-lhe um livro muito prático, principalmente para mulheres que tencionam ser mães. O livro chama-se “Um acto de amor” e foi escrito pela pediatra portuguesa Leonor Levy.

 

Este livro, que se lê muito facilmente, encanta pela forma simples e apaixonada como a autora fala do processo de aleitamento materno. Leonor Levy compara o processo de aleitamento materno a uma valsa, dançada entre a mãe e a criança, em ambos sabem exactamente os passos a dar.

 

Ao ler este livro, para além de ficar a perceber a importância do aleitamento materno, vai chegar à conclusão que amamentar é um acto único de amor. No entanto é um dos momentos que mais dúvidas, inquietações e ansiedade desperta numa mãe. Será que sou capaz de dar de mamar? Porque será que o meu filho não pega no peito? Será que o meu leite é bom e suficiente para que o meu bebé cresça de forma saudável? Não é melhor dar-lhe leite artificial? Devo dar de mamar de quanto em quanto tempo? Tenho os mamilos invertidos, não posso dar de mamar? Não sei porquê mas parece que tenho cada vez menos leite. A autora Leonor Levy, especialista em aleitamento materno e membro da Comissão Nacional «Iniciativa Hospitais Amigos dos Bebés» que integra o Comité Português para a Unicef desde 1998, responde a estas e outras questões e garante-nos que não há melhor presente que possamos dar aos nossos filhos, do que amamentá-los. As vantagens a curto e a longo prazo para as mães e para os bebés são muitas e variadas.

 

O vínculo que se forma entre o par de amamentação Mãe/Filho é muito forte, reforçando a afectividade entre ambos, sendo muito menos provável que uma mãe que amamente, abandone ou maltrate o seu filho. Tanto a mãe como o filho saem desta experiência mais enriquecidos e com uma maior segurança e auto-estima.

 

Um Acto de Amor de Leonor Levy é uma obra essencial para perceber a importância de amamentar. Saber como resolver problemas e dificuldades como uma má pega ou uma mastite, desmistificar alguns mitos ligados à lactância e dar alguns conselhos  sobre alimentação, desmame ou regresso ao trabalho são o objectivo deste livro que, acreditamos, vai ajudar as mães a esclarecerem dúvidas, inquietações e ansiedades.

 

Leonor Levi, especialista em aleitamento materno e membro da Comissão Nacional «Iniciativa Hospitais Amigos dos Bebés» que integra o Comité Português para a Unicef desde 1998, garante-nos que não há melhor presente que possamos dar aos nossos filhos, do que amamentá-los.

 

Um acto de amor

Autor: Leonor Levy

Editor: A Esfera dos Livros

Preço: €20

 

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Domingo, 13 de Fevereiro de 2011

Editorial de 11 de Fevereiro de 2011.

Esta semana, contamos-lhe mais pormenores de uma história que avançamos em primeira-mão na edição electrónica e que, no mínimo, é insólita.

 

Uma mulher de 25 anos que reside em Paredes fez-se passar por doente oncológica. Disse que tinha um cancro no fémur e chegou a organizar uma recolha de sangue para, alegava, encontrar um dador compatível de medula óssea. Gerou-se um movimento de solidariedade que levou meia centena de pessoas a deslocarem-se ao quartel dos Bombeiros Voluntários de Baltar para doar sangue, numa tentativa de se encontrar um dador compatível. Mais tarde, a mesmo mulher, garantia ter encontrado um dador, só que este dador estava noutro país e pedia 40 mil euros. A mulher, que chegou a aparecer em público com cabelo rapado, começou a espalhar pelos estabelecimentos comerciais umas caixas para a recolha de donativos.

 

Tudo isto teria corrido bem à mulher alegadamente doente, não fosse o pároco de Baltar ter desconfiado da história. O padre Francisco Andrade, quando confirmou que a mulher não estava inscrita no hospital onde dizia estar a tratar-se, denunciou a situação no final das missas do passado fim-de-semana. Ao VERDADEIRO OLHAR, a directora do Centro de Histocompatibilidade do Norte certifica que a mulher de Baltar nunca esteve inscrita para receber um transplante de medula óssea. Era tudo falso.

 

Esta triste e insólita história merece-me três breves reflexões. Em primeiro lugar, fica provado que não há crise que nos tire esta característica muito nossa: a grandeza e a extrema humanidade do povo Português no que toca a solidariedade. Em segundo, para que situações destas não voltem a acontecer, é necessário que se confirme melhor todos os pedidos de ajuda. Não se compreende como é que empresas, bombeiros e até a equipa que fez a recolha do sangue não tenham atestado esta história. Em terceiro, não deve “pagar o justo pelo pecador”. Mesmo em tempos difíceis como os que vivemos, devemos continuar a ser um povo que se orgulha de semear generosidade.

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Terça-feira, 08 de Fevereiro de 2011

Sugestão de Leitura: Segredos do passado

Depois do sucesso de "A doçura da chuva", a Porto Editora publicou um novo livro da escritora Deborah Smith, "Segredos do Passado". À venda desde o passado dia 1 de Fevereiro, este romance conta uma história comovente sobre a força do amor e a da amizade.

 

Filha de uma respeitada família de Dunderry, na Geórgia, Claire Maloney era uma menina caprichosa e mimada, mas isso não a impediu de travar amizade com Roan Sullivan, um rapaz feroz, órfão de mãe, que vivia numa caravana com o pai alcoólico. Nunca ninguém conseguiu compreender o laço que unia as duas crianças rebeldes. Mas Roan e Claire pertenciam um ao outro… até à violenta tarde em que o terror tomou conta das suas vidas e Roan desapareceu.

 

Durante vinte anos, Claire procurou o rosto do seu amor de infância por entre a multidão. Durante vinte anos, esperou ansiosamente uma carta e sobressaltou-se a cada toque do telefone. No entanto, quando Roan surge novamente na sua vida, a alegria de Claire não é completa, pois ao contrário do que se afirma o tempo não apaga todas as feridas. Algumas permanecem ocultas, prestes a reabrir-se ao mais pequeno incidente. Que segredos do passado envenenam o presente e minam o futuro?

 

A AUTORA
Deborah Smith é uma das autoras americanas mais lidas em todo o mundo: a sua obra já vendeu mais de três milhões de exemplares. Nomeada para diversos prémios importantes, como o RITA Award da Romance Writers of America e o Best Contemporary Fiction da Romance Reviews Today, foi distinguida com o Prémio de Carreira atribuído pela Romantic Times Magazine. No catálogo da Porto Editora figura já o seu romance A doçura da chuva, que obteve assinalável êxito junto dos leitores portugueses.

 

 

Segredos do passado

Autor: Deborah Smith
Editor: Porto Editora
PVP: 16,60 €

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Sábado, 05 de Fevereiro de 2011

O que não foi dito

Na semana passada, reagindo às manifestações dos pais, professores e alunos do ensino privado, a Ministra da Educação apressou-se a dar uma conferência de imprensa em que terminou dizendo textualmente isto: “O Estado não tem que pagar nem luxos, nem privilégios, nem piscinas, nem campos de golfe e de equitação!”. À primeira vista, e para quem não tem mais qualquer conhecimento sobre este assunto, a Ministra até parece ter razão. Parece, mas não tem!

 

Antes de fazer tal afirmação, a senhora Ministra deveria ter dito aos portugueses que – as poucas – escolas privadas que têm esses equipamentos, adquiriu-os com dinheiro privado, sem um único cêntimo do Estado. Depois, não teria ficado mal à senhora Ministra ter esclarecido quanto custa ao Estado cada aluno do ensino público. Em vez disso, a governante mentiu e omitiu números. Senão vejamos: segundo a Ministra da Educação, as escolas privadas ficam mais caras que as escolas estatais, mas para chegar a essa conclusão a Ministra somou apenas o vencimento dos professores. Esqueceu-se de juntar à conta os encargos sociais dos funcionários públicos; a manutenção e conservação das infra-estruturas; o transporte escolar, que é paga pelas câmaras municipais. Mais grave ainda é o facto da Ministra da Educação, que faz parte de um Governo que sofre de fobia contra tudo o que é privado, ter-se esquecido de dizer aos portugueses que o seu Governo vendeu os terrenos das escolas públicas do país a uma empresa chamada “Parque Escolar”. Esqueceu-se ainda de dizer que o Estado paga mensalmente à tal empresa, em média, dois euros por cada metro quadrado.

 

É fácil de perceber que, em comparação, o custo das escolas estatais é muito superior ao das escolas privadas.

 

O Governo não pode, a meio do ano, denunciar um contrato de forma unilateral, quando o acordo foi bilateral. A Ministra não deve fazer um ataque ao ensino privado esquecendo-se que o seu percurso académico passou por este mesmo ensino.

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Quarta-feira, 02 de Fevereiro de 2011

O casal perfeito

No ano passado fiz 35 anos de casado, o que significa que quase dois terços da minha vida se passaram nesta situação. E isso confere-me naturalmente uma autoridade acrescida para falar do assunto e dar alguns conselhos aos jovens cônjuges ou àqueles que estão para casar.
 
Há muitos mitos e ratoeiras à volta deste assunto. Algumas das maiores confusões foram lançadas pelas feministas dos anos 60 e 70. Criticando a mulher fada do lar, considerando o trabalho doméstico uma escravatura, aconselhando as mulheres a serem completamente independentes dos maridos, incentivando-as a terem uma carreira profissional, as feministas abriram uma caixa de Pandora e introduziram nos casais os germens da discórdia.
 
As mulheres passaram a rebelar-se contra os maridos, recusando-se a executar certas tarefas que no passado faziam naturalmente.
 
Fazer a comida? Porquê eu? Faz tu!
Mudar a fralda ao bebé? Por que razão hei-de ser sempre eu? Muda hoje tu!
Fazer a cama? Mas tu não te deitas também nela? Desta vez faz tu!
Aspirar a casa? Mas não a sujas tanto como eu ou até mais? E além disso tens mais força! Aspira tu!
 
NÃO digo que as feministas não tivessem razão em algumas das suas lutas a favor da libertação da mulher e contra o comportamento machista de muitos homens. Isso não está em causa. A questão é que, objectivamente, incentivaram as mulheres a revoltar-se, fazendo com que as relações nos casais nunca mais fossem as mesmas.
 
A minha avó paterna, por exemplo, fez durante toda a vida as tarefas domésticas sem uma queixa, convencida de que era essa a sua contribuição para o bem-estar da família. Mas no tempo dos meus pais as coisas já não se passaram bem assim. E na minha geração – que recebeu em cheio o impacto dos loucos anos 60 – tudo já foi diferente.
 
Entretanto, se muitas das reivindicações feministas tinham razão de ser, o feminismo padeceu de um enorme equívoco que esteve na origem de inúmeros conflitos. O equívoco foi este: considerar que os homens e as mulheres são iguais – tendo as mesmas qualidades e os mesmos defeitos, as mesmas capacidades e as mesmas limitações, devendo por isso desempenhar em casa exactamente as mesmas tarefas.
 
Aqui é que começou o problema. Porque os homens e as mulheres são estruturalmente diferentes. Têm sensibilidades diferentes, gostos diferentes, vocações diferentes, aptidões diferentes. Para um casal se dar bem, precisa de perceber isso. De perceber que, sendo os dois diferentes, não devem procurar fazer o mesmo – mas, exactamente ao contrário, têm de repartir as tarefas.
 
Tal como numa empresa o segredo é dividir as funções e distribuí-las de acordo com as competências de cada um, no casal a regra é a mesma.
 
Em minha casa, por exemplo, quem habitualmente cozinha é a minha mulher (e digo 'habitualmente' porque às vezes é a empregada e outras vezes comemos fora); mas, em compensação, sou eu que levo sempre o cão à rua à noite, faça frio ou faça chuva. É a minha mulher quem aspira a casa (quando não é a empregada); mas sou sempre eu que conserto uma torneira que se estraga, penduro os quadros, zelo pela instalação eléctrica ou carrego as bilhas de gás na casa de Estremoz. É a minha mulher quem controla as contas bancárias, mas sou eu que transporto os sacos das compras quando vamos ao supermercado.
 
Uma BOA repartição de funções é um dos segredos para o bom funcionamento do casal. Porque se criam rotinas. E isso reduz o esforço e evita muitas discussões. Imagine-se o que seria discutirmos todos os dias quem faria o jantar. «Olha, hoje faz tu». «Não, hoje não me apetece». «Faz tu hoje, que eu faço amanhã». «Isso é o que hoje dizes para te safares, mas amanhã arranjas outra desculpa». Era um inferno. E um sacrifício a dobrar. Porque quem saísse vencido da disputa iria fazer o jantar duplamente irritado: por ter de o fazer e por ter perdido a batalha doméstica…
 
Outra questão importante é a da liderança. Numa empresa bem organizada a hierarquia deve estar bem definida. Em cada área o poder de decisão deve ser atribuído com clareza. Ora, salvaguardadas as devidas diferenças, nos casais passa-se o mesmo. Não quer dizer que um mande sempre e o outro obedeça sempre. O importante é que cada um dos membros do casal tenha a sua área de influência, uma área na qual sinta que tem a última palavra, em que possa projectar o seu poder.
 
É evidente que, nas grandes decisões, deve haver consenso entre os membros do casal. Mas é utópico pensar que pode haver sempre consenso em tudo. Acreditar nisso é outra fonte potencial de conflitos.
 
Devem existir áreas de influência – de acordo com as inclinações, os talentos e os gostos de cada um.
 
Numa entrevista televisiva a propósito do seu livro de memórias Viver para Contá-la (título em que me inspirei para dar nome a esta secção) o Prémio Nobel da Literatura Gabriel García Márquez dizia que, ao contrário do que vulgarmente se advoga, os casais não devem aprofundar a discussão de certos assuntos. A maior parte das pessoas defende que os casais devem discutir tudo, escalpelizar as dúvidas e as questões mais delicadas até ao fim. Ora ele defendia exactamente o contrário: os casais não devem prolongar as discussões nem esmiuçar os pontos de atrito. Em certos assuntos delicados o melhor é pôr um ponto final na conversa. Não pretender aprofundar. Prolongar o diálogo só vai agravar as coisas, prejudicar a relação. Em vez de aproximar o casal, acentua a divisão.
 
Ele sabe do que fala. Pode não ter uma experiência de casamento tão longa como a minha, mas tem certamente mais experiência do que eu nas relações com as mulheres – porque sempre foi um bon vivant, um sedutor, um conquistador, com o calor próprio dos sul-americanos.
Para um casal funcionar bem quando o deslumbramento da paixão deixa de esconder as diferenças e vêm ao de cima as inclinações diversas do homem e da mulher, aqui fica uma série de conselhos úteis:
 
Repartir as tarefas domésticas de acordo com as inclinações de cada um. Não pretender que sejam os dois a fazer tudo: a indefinição é uma fonte constante de irritação e atritos;
Criar rotinas dentro de casa;
Definir com justiça as áreas de liderança, para que cada um dos membros do casal sinta que tem o seu espaço de poder;
Não esmiuçar assuntos potencialmente conflituais, deixando o tempo curá-los.
 
Claro que mesmo com estas cautelas a vida de casado não é sempre um mar de rosas. Mas devemos potenciar aquilo que é capaz de unir, desvalorizando o que pode desunir. E depois é necessária tolerância. Antes de julgarmos os actos da nossa mulher (ou do nosso marido) devemos procurar percebê-los, colocarmo-nos no lugar dela (ou dele) e tentarmos perceber o que a levou (ou o levou) a fazer isto ou aquilo.
 
Finalmente, é preciso ter presente que nada na vida tem só vantagens. A moeda tem duas faces. O casamento não foge à regra: tem vantagens e desvantagens. Se valorizarmos estas em demasia, rapidamente concluímos que não vale a pena. Para manter o casamento é preciso abdicar do acessório para salvar o essencial. Na convicção de que fora da família não é muito fácil encontrar a felicidade.
 
José António Saraiva

alinhado por fcrocha às 09:28
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