Sexta-feira, 04 de Outubro de 2013

Tempo de fazer contas

O leitor deve ter percebido facilmente que, desde que foram conhecidos os candidatos às eleições autárquicas, deixei de escrever sobre assuntos relacionados com a política local – não porque não houvesse muito para dizer, mas por entender que, pesados os prós e os contras, beneficiaria o nosso trabalho jornalístico. Quanto à cobertura destas eleições, limitámo-nos à apresentação de cada um dos principais candidatos, a uma sondagem e a uma extensa entrevista. Tratámos todos os candidatos de forma equitativa. Por isso, agora que as eleições já lá vão, é tempo de olhar para os resultados eleitorais e tentar compreendê-los. É certo que houve um voto de protesto ao Governo de direita, mas isso, por si só, não chega para explicar os resultados da noite do passado domingo. Vamos a cada um dos concelhos.

 

Lousada. Tal como aconteceu em 2009, duas semanas antes das eleições publicámos uma sondagem. A sondagem feita pelo GEMEO-IPAM revelava uma vantagem de pouco mais de cinco por cento para a coligação PSD/CDS-PP, enquanto 37% dos inquiridos se mostravam indecisos. A noite eleitoral mostrou que uma grande parte desses indecisos optou por votar no PS.

 

Interessa compreender o que terá levado os indecisos a votarem no PS. A resposta parece-me óbvia: a enxurrada de promessas feitas por Leonel Vieira. A cada semana que passava, Leonel Vieira acrescentava mais promessas, até chegar ao ponto de prometer vacinas gratuitas. Ninguém acredita em quem promete tudo, quando o Governo corta quase tudo porque o país não tem dinheiro. Na entrevista que fiz a ambos, Pedro Machado mostrou-se muito mais bem preparado, sem necessidade de recorrer ao ataque pessoal, ao contrário do seu adversário. Leonel Vieira desperdiçou a oportunidade que não volta a ter.

 

Paços de Ferreira. Foi surpresa da noite… para alguns. Ao contrário do que sucedeu nos outros concelhos, não publicámos uma sondagem para este concelho. Isto não quer dizer que não a tenhamos feito. Fizemos duas: uma na primeira semana de Setembro e outra na passada segunda-feira. A primeira revelava uma vantagem de quase 14% para o PSD, mas também dizia que quase metade dos inquiridos se recusava a responder. Optámos por encomendar uma segunda sondagem para a última semana da campanha. Essa revelou que o PS estava prestes a ganhar as eleições, estando apenas a pouco mais de 4% do PSD, com a tendência de voto dos indecisos a cair no PS. Como a diferença entre os dois candidatos era inferior à margem de erro da sondagem, optámos por não a publicar.

 

Neste concelho, o grande derrotado da noite foi Pedro Pinto. O presidente dos autarcas do PSD perdeu na sua própria terra. E não foi apenas por culpa do Governo: Humberto de Brito soube explorar até ao limite as dificuldades financeiras do município e o elevado preço da água. Num concelho tradicionalmente “laranja”, a empatia e a notoriedade conseguidas por Humberto de Brito fizeram os eleitores esquecer-se da cor partidária.

 

Paredes. O resultado ia matando de susto os vencedores e os vencidos: por um lado, o PSD estava à espera de uma vitória esmagadora – as duas sondagens revelavam isso mesmo –; por outro, o PS estava à espera de saber por quantos ia perder. O resultado final apanhou todos de surpresa, mas parece reflectir mais demérito do PSD do que propriamente mérito do PS, pois apesar de o PSD ter perdido quase 11 mil votos, o PS subiu pouco mais de 5 mil.

Acredito que os eleitores quiseram penalizar o Governo, mas isso não chega para explicar tudo. Numa grande parte das freguesias, os eleitores votaram PSD para a Junta e PS para a Câmara, ou seja, quiseram penalizar o presidente da Câmara. Mesmo assim, as poucas dezenas de votos de vantagem foram suficientes para conseguir fazer um terceiro mandato com maioria absoluta. Paredes passou a ser o único município da região gerido pelo PSD.

 

Penafiel. Foi a vitória mais expressiva da região. Antonino de Sousa conseguiu resistir à tempestade que varreu a direita e garantiu uma vitória confortável para a coligação PSD-CDS-PP. A última das três sondagens revelava que o candidato do PS iria recuperar bastantes votos, mas não os suficientes para vencer a Câmara, o que, de facto, aconteceu. Mesmo sem ganhar as eleições, André Ferreira também é um vencedor: conseguiu um aumento significativo de votos e tirar um vereador à coligação de direita, o que lhe pode dar esperança para uma candidatura em 2017.

 

Valongo. A cinco dias das eleições, os dois candidatos estavam separados por uns escassos 4,7% de diferença, com vantagem para o PSD. No entanto, no mais urbano dos concelhos da nossa região, 50% de abstenção alteraram o resultado final. Para a história ficará que, em apenas um ano e meio de presidência, João Paulo Baltazar fechou duas piscinas por falta de dotação orçamental para as manter, recusou fazer um estádio prometido por Fernando Melo e tirou o concelho de Valongo da lista dos mais endividados do país. E perdeu as eleições.

 

Sondagens. Nos últimos dias, temos sido acusados de responsabilidade na não-coincidência dos resultados das sondagens com os resultados eleitorais, como se o VERDADEIRO OLHAR alguma vez tivesse feito sondagens. As sondagens que publicámos foram feitas por uma universidade prestigiada e o trabalho foi certificado pela ERC. Além disso, sondagens são apenas intenções de voto no momento em que são manifestadas e recolhidas – não são resultados eleitorais. Se assim fosse, as eleições não seriam necessárias. Já agora, importa referir que não foram as sondagens feitas para o VERDADEIRO OLHAR que falharam, foram 97% das sondagens registadas na ERC até à última semana de eleições. A título de exemplo, uma semana antes das eleições, quase todos os jornais nacionais publicaram sondagens que  davam como certa a vitória de Luís Filipe Menezes no Porto, o qual, é bom recordar, veio a ficar num bem diferente terceiro lugar.

 

alinhado por fcrocha às 09:23
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