Domingo, 30 de Junho de 2013

Pode a beleza tornar-se mais bela?

Por José Luís Nunes Martins

 

A consciência do dom obriga-me. Por isso em português dizemos tão sabiamente: obrigado. O que me foi dado compromete-me

O mundo é uma pergunta. É a resposta.


Muitos são os que exploram o que há nas montanhas, nos mares e nos desertos... mas são poucos os que chegam a descobrir a divindade que há à volta do seu coração.


Cada vida é um dom. Há que aceitar esta verdade que se escuta até nas coisas mais simples. Cada homem tem algo de extraordinário, assim como cada coisa tem o seu lugar. Desprezar uma pessoa, ou um qualquer pedaço de mundo, é ignorar que até o mais pequeno dos fragmentos de um espelho partido consegue reflectir a luz do sol e iluminar uma escuridão.

 

Aquele que se preocupa tanto com o seu vizinho como consigo mesmo, perdoando-lhe como se perdoa a si mesmo, conhece o valor da vida e o caminho para a felicidade. Nunca é complicado. Trata-se de, na maior parte dos casos, conseguir respeitar o outro, aceitando-o como igual e não como alguém de uma humanidade diferente. Há corações cegos, mesmo quando os olhos vêem.

 

Neste lugar sagrado de nós mesmos, onde os instantes não se medem, reside uma ideia simples: Cada homem é do tamanho da fé de que for capaz. Das desesperanças que consegue vencer. Não do tamanho dos seus aniversários, posses ou ambições... Só quem reconhece que a vida lhe chegou às mãos como um puro presente pode esperar compreender a essência do amor. A sua absoluta gratuitidade.

 

A consciência do dom, obriga-me. Por isso em português dizemos tão sabiamente: obrigado. O que me foi dado, compromete-me.


Não viver bem. Eis a raiz de um dos maiores medos perante a morte. Teme-se não tanto o depois, mas o que pode não acontecer antes. A verdade é dura. A vida não vivida dói-lhes.

 

Ter a própria morte por perto obriga-nos a viver melhor a nossa vida, com a absoluta urgência de apenas valorizar o importante. Só quem julga que vai viver aqui para sempre (como se a vida eterna fosse esta) se dá ao luxo imbecil de desperdiçar uma hora das suas; os demais, aqueles que estão conscientes do tempo limitado, podem, face a face com a sua morte, abraçar o melhor desta vida, e, quando lhes chegar o fim, não o temerão da mesma forma... por que terão dado a si mesmos uma vida boa, bela e verdadeira... que não acaba com a morte. Uma vida bem vivida, é eterna, apesar da morte.

 

Aceitar o dom da vida implica honrar com a felicidade esse que é o supremo talento.


Há que aprender a moderar os juízos, sem condenar nem recompensar nada com precipitação. A realidade é efémera e a maior parte das nossas certezas são apenas transitórias, mundanas. Muitas tristezas nascem das pressas. Mas não haverá pior desgraça do que a de quem, no amor, não se entrega todo... de quem não está disposto a dar a sua vida por aquilo em que acredita...

 

Uma vida sem nada pelo qual valha a pena morrer, também não é digna de ser vivida.

 

Há que respirar paciência. Respirar a verdade de que a vida nos chega a cada segundo... respirar, percebendo que cada respiração é uma simples onda de vida que nos ilumina o interior.

 

Pode a beleza tornar-se mais bela? Sim, pelo amor. O dom de quem dá, o mesmo de quem recebe.

 

No amor, o mais sábio e ousado não é o que bem defende e ataca mas o que se rende e entrega...

 

Publicado no jornal "i" em 29 Jun 2013

alinhado por fcrocha às 09:24

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